sábado, 26 de julho de 2008

De escritor e louco...

...todo tradutor tem um pouco?

Ontem, 25 de julho, foi o Dia Nacional do Escritor. Seria impreciso dizer que ontem "comemorou-se" o Dia Nacional do Escritor, pois a data é praticamente desconhecida, como observa Henrique Araújo em seu artigo sobre o assunto para o jornal O Povo.

Há quem diga que tradutores (e editores, revisores, bloggers, etc. e tal) são escritores frustrados. A meu ver, porém, aquele que traduz e aquele que escreve cumprem papéis um tanto diferentes, porém intimamente relacionados. É verdade que quem traduz não precisa gerar a idéia ex nihilo, mas "apenas" passá-la para outra língua. Não começa olhando para uma página vazia do Word com o cursor piscando. Parte de um texto pronto e trabalha com os conceitos que o autor resolveu desenvolver. O processo pode ser relativamente simples e direto quando os textos em questão são de cunho técnico ou acadêmico. As boas traduções literárias, contudo, envolvem uma dose considerável de um talento que não é exatamente igual ao do escritor. Ou será que o talento é o mesmo, porém desenvolvido de forma diferente?
Não é dificíl encontrar textos sobre o tradutor literário como escritor. Veja, por exemplo, este artigo do site Literary Translation.

O tema é interessante e, quem sabe, pode ser discutido em posts futuros. Minha intenção hoje, porém, é homenagear os tradutores que também são escritores. Não estou falando de escritores famosos que são convidados a traduzir grandes obras. Refiro-me a quem, como eu, ganha a vida traduzido com muita satisfação, mas, de vez em quando, resolve deixar o lado escritor "sair do armário" e cria seus próprios textos.

Não sei como acontece com outros, mas, para mim, a convivência com o alter-ego escritor é ligeiramente conflitante. Uma parte sonhadora suspira: Ah, como seria bom ter mais tempo e disciplina para escrever. Como seria gratificante ver um texto nosso publicado e interagir com os leitores. A outra parte, sempre muito sensata e prática, declara: Temos prazos a cumprir e contas a pagar. Não precisamos de mais complicações na vida. Os contratos de tradução são garantidos. Escrever é extremamente arriscado. Exige horas de trabalho árduo que talvez nunca seja reconhecido nem remunerado.
Cada um precisa analisar sua própria situação e pedir orientação de Deus. Gostaria, porém, de incentivar os tradutores que têm um lado escritor no armário a refletirem sobre algumas questões:
  • Posso abrir mão de algumas horas de trabalho remunerado sem comprometer os elementos mais básicos de meu orçamento e usá-las para escrever?
  • Tenho medo de desperdiçar tempo e esforço em algo que talvez não tenha o resultado que eu espero?
  • Qual é a pior coisa que pode acontecer se eu resolver trabalhar em meus próprios textos algumas horas por semana ou por mês?
Se você acredita que Deus lhe deu um talento específico - seja como tradutor, escritor, educador, músico, whatever - peça disciplina e coragem para usar essa dádiva. O talento vem de Deus, mas a responsabilidade de desenvolvê-lo é nossa e exige trabalho árduo. Por vezes, teremos de reavaliar nossas prioridades e tomar decisões um tanto assustadoras. Teremos de confiar no cuidado e provisão diária de Deus e nos expor a críticas e fracassos. Por outro lado, poderemos colher os frutos que Deus tem reservado para nós e vê-lo abençoar outros por meio do talento que nos deu.

Um comentário:

Eleni Klassen disse...

Excelent article!

That reminds me that when God gives us a dream (like He did to Joseph of Egypt), He has the intention to fulfil that dream in His own time (not ours).

Translator or writer,just keep in touch with God- the author of your gifts so when it comes the time for you to swap the role, He will let you know and will also support in meeting your needs. Sometimes we got take a "leap of faith".

Blessings,

Eleni Klassen
Chaplain @ The Hospice of the Comforter, Florida, USA