sábado, 22 de setembro de 2007

Valha-me São Jerônimo!

O último dia de setembro é dia de São Jerônimo, o padroeiro dos tradutores. Mas para que serve um padroeiro?

No catolicismo, ele é um santo que intercede junto a Deus por um determinado grupo de pessoas com os quais tem mais afinidade. Há quem considere uma demonstração de humildade e devoção não dirigir suas súplicas diretamente a Deus, mas a um santo — de preferência, o padroeiro associado ao rogo em questão.

Porém, também há quem creia que Cristo, por meio de seu sacrifício na cruz e ressurreição dentre os mortos, concede acesso direto ao Pai, como deixa claro a Epístola aos Hebreus: “Mas Jesus, o Filho de Deus, é o nosso grande Supremo Sacerdote que foi diretamente para o céu, a fim de nos ajudar [...] Portanto, vamos ousadamente até o próprio trono de Deus e permaneçamos lá para recebermos a sua misericórdia e acharmos a sua graça para nos ajudar em nossos tempos de necessidade” (4.14-16).

Nesse caso, de que vale um santo padroeiro? Para quem se dispuser a não jogar fora o bebê com a água do banho, pode valer muito. Um padroeiro não vai nos proteger nem rogar por nós, mas pode servir de exemplo e inspiração em nossa jornada pessoal e profissional.

Em sua vida de fé, Jerônimo teve altos e baixos, mas buscou arduamente colocar seu relacionamento com Deus antes das coisas terrenas.

Em sua vida de trabalho, Jerônimo foi um exemplo de dedicação à pesquisa. Ao receber a incumbência de revisar a Vetus Latina, o conjunto de traduções de textos bíblicos para o latim usado pela igreja da época, Jerônimo se mudou para Jerusalém a fim de aprimorar seu conhecimento do hebraico e entender melhor a cultura e literatura judaica.

Também demonstrou espírito inovador, pois, sempre que possível, ao invés de usar a Septuaginta (tradução do Antigo Testamento para o grego), a exemplo dos tradutores do seu tempo, foi diretamente aos textos hebraicos, contrariando até estudiosos do calibre de Agostinho que consideravam a Septuaginta inspirada. O resultado de seus esforços foi a Vulgata, a Bíblia em latim na qual se basearam várias outras traduções importantes, como a de John Wycliffe para o inglês (sobre a qual pretendo comentar num post à parte em breve).

A Vulgata também exerceu influência importante no desenvolvimento da língua inglesa. Considere, entre muitos outros, os termos “creation” do latim creatio, “salvation” de salvatio, “rapture” de raptura, “publican” de publicanus e a expressão “be it far from thee” empregada na versão King James (Mt 16.22 – no português, “tem compaixão de ti, Senhor”; lit. “longe de ti, Senhor”) do latim absit.

Como qualquer ser humano imperfeito, Jerônimo cometeu erros tanto na vida pessoal quanto profissional, mas sabia onde encontrar o perdão para os pecados e as forças para colocar em prática o seu próprio conselho: “Good, better, best. Never let it rest. 'Til your good is better and your better is best”.

Um comentário:

Chaplain Eleni Klassen disse...

Excelentes consideracoes sobre Jeronimo, um exemplo de dedicacao e perseveranca em buscar pelo melhor no seu trabalho e vida pessoal.

Que sigamos o seu exemplo lembrando-nos do apostolo Paulo em sua carta aos Colossenses 3:23 "Work hard and cheerfully at whatever you do, as though you were working for the Lord rather than for people".

Blessings from above!!!