sábado, 8 de março de 2008

Margaret Roper

Para lembrar o Dia Internacional da Mulher, selecionei alguns trechos do artigo Margaret Roper & Erasmus: The relationship of translator and source da revista WWR – Women Writing and Reading.

Margaret (1505-1544), filha de Thomas More, se tornou conhecida por sua tradução do latim para o inglês de Precatio Dominica [A devout treatise upon the Pater Noster] (1523) do humanista holandês e teólogo Erasmo de Roterdã. Convém lembrar que os escritos de Erasmo contribuíram de forma significativa para a estruturação das bases intelectuais para a Reforma Protestante (ver Allister McGrath, Teologia Histórica, Ed. Cultura Cristã, 2007. pp.134-135).

O artigo completo é longo, mas não monótono, pois descreve em detalhes os recursos usados por Margaret como tradutora para manter o espírito e a relevância do texto de Erasmo.

Chamam a atenção as observações sobre o modo como as mulheres estudiosas eram vistas na época (ver negrito meu abaixo) e sobre o papel pioneiro de Margaret não apenas como tradutora, mas como disseminadora do conhecimento.

As biographers, dramatists, historians, painters, and philosophers present her, Margaret Roper is preeminently her father's creature. Educated in the More household, this erudite woman is assumed to be a paragon of filial virtue, a characterization which has the potential to muffle individuality. Only a portion of her writing has survived [...]

In Erasmus's correspondence with Roper, whom he greeted as "optima Margareta," the humanist praised the letters of all the More sisters as "sensible, well-written, modest, forthright and friendly" (letter 1401, Basel, 25 December 1523). His Christmas gift to her in the year of the publication of Precatio Dominica was his commentary on Prudentius's hymns for Christmas and the Epiphany; the gift not only verifies his confidence in Margaret's Latin but also reveals Erasmus's "attitude presque paternelle" since he casts himself as "le pédagogue attentioné, soucieux de former une élève de choix" (Béné 473). The following year Erasmus used Margaret as "the probable model" (King 181) for Magdalia in the colloquy "The Abbot and the Learned Lady"; this interlocutor wastes no time chastizing the Abbot's fear of women's learning, deftly wielding a double-edged sword to reply to the claim that "a wise woman is twice foolish": That's commonly said, yes, but by fools. A woman truly wise is not wise in her own conceit. On the other hand, one who thinks herself wise when she knows nothing is indeed twice foolish. (Thompson 222) [...]

Margaret Roper was a creative translator schooled in travelling back and forth between Latin and English. The practice of double translation, from English to Latin and then from Latin back to English, encouraged in More's home-based school, supplied the "early apprenticeship" (Weinberg 26) Margaret drew on most effectively in A deuout treatise. Her father's ardent belief in the need to educate girls and boys as, in the phrasing of his letter to the tutor William Gonell, "equally suited for the knowledge of learning by which reason is cultivated," not only established "More's leadership, in both practice and theory, about the liberal training of women" (Rogers 120-23) but also must have heartened and inspired Margaret when Erasmus's commentary came into her hands. She knew from experience that "the study of Latin was, to some extent, a Renaissance puberty rite - but only for boys and young men - " (McCutcheon 201) and that her rare privilege also conferred a responsibility to share and disseminate this catechetical teaching. […]

The work of this unknown girl, who was also a remarkably shrewd, self-possessed scholar, is poised on the brink of individual creative expression. Although in the sixteenth-century female-gendered activity of translating, a woman translator was "less vulnerable to the accusation of circulating her words inappropriately" because "they were not, strictly speaking, her words at all" (Lamb 12), Roper's translation is not enslaved to the source language nor does it caper irresponsibly in the target language. The respect accorded the source seems due as much to its subject and intent as to its authorship. […]

The intense filial bond between Margaret More Roper and her father accounts for her scholarship, her friendship with Erasmus and, in a practical way, our recognition of her as a translator. But this daughter for all seasons is not simply a conveyor (translatus meaning "carried across") from Latin to English. In its elements of self-conscious discourse, her authorial voice does not shy away from teaching, from commentary on its own functioning and primary message. Her additions and embellishments, along with decisions to elide and collapse phrases, show how warmly she responded to the rhetorical exercise of preaching. Expounding on, colouring and extending the Erasmian source, her translation supplies a truly polyphonic response.

domingo, 2 de março de 2008

Deslizes

Na tentativa de fazer uma crítica (e autocrítica) útil, estou compilando uma lista de equívocos de tradução. Esta é a primeira parte.
Uma vez que o intuito é chamar a atenção para deslizes que todos nós estamos sujeitos a cometer, conto os milagres, mas não os santos.
Os termos estão em inglês dos Estados Unidos traduzido para o português do Brasil. Entre parênteses, minhas sugestões. Se você também tem uma listinha assim ou sugestões para as palavras abaixo, deixe seu comentário.
  1. America (susbt.) — América (como referência ao país, melhor Estados Unidos). Quanto à nacionalidade, American, normalmente norte-americano é preferível a americano (afinal, estritamente falando, brasileiros também são americanos...).
  2. Approach (subst.) — aproximação (em muitos contextos, abordagem. E.g.: An optimistic approach to the problem.)
  3. Assume (vb.) — assumir (em vários casos, supor)
  4. Bottom line (subst.)— linha de fundo (em vários contextos, resultado, moral da história ou, ainda, lucro)
  5. Character (subst.) — caractere (quando associado a uma peça, livro ou filme, personagem)
  6. Compass (subst.) — compasso (em vários contextos, bússola)
  7. Disorder (subst.) — desordem (no contexto da saúde e comportamento, distúrbio. Some of them have a cognitive disorder.)
  8. Divination (subst.) — divinização (melhor, adivinhação, presságio)
  9. Do laundry (vb.) — cuidar da lavanderia (mais comum, lavar roupa)
  10. Entertain (vb.) — entreter (em alguns contextos, considerar. He entertained the possibility of buying a house.)
  11. Exciting (adj.) — excitante (em muitos casos, empolgante, emocionante)
  12. Expanse (subst.) — expansão (em vários contextos, melhor vastidão, extensão)
  13. Familiar (adj.) — familiar (por vezes, conhecido)
  14. Federal head (subst.) — cabeça federal (representante)
  15. Grain (subst) — grão (em vários contextos, melhor, cereal, ou mesmo, trigo)
  16. Gym (subst.) — ginásio (academia [de ginástica])
  17. Intriguing (adj.) — intrigante (em alguns contextos, é melhor enigmático, curioso, interessante)
  18. Lamp (subst.) — lâmpada (abajur, luminária)
  19. Luxury (subst.) — luxúria (normalmente, luxo)
  20. Novel (subst.) — novela (romance, literatura de ficção)
  21. Part (subst.) — parte (quando associado a um ator, papel)
  22. Perfect (vb.) — aperfeiçoar (em alguns contextos, também pode ser completar. Christ wishes to perfect his plan in our lives.)
  23. Plant (subst.) — planta (por vezes, fábrica, usina)
  24. Pretense (subst.) — pretensão (em vários casos, fingimento, simulação).
  25. Prevent (vb.) — prevenir (com freqüência, impedir)
  26. Primarily (adv.) — primariamente (principalmente, acima de tudo)
  27. Prize (vb.) — premiar (geralmente, apreciar, gostar, avaliar)
  28. Resume (vb.) — resumir (retomar, recomeçar, prosseguir)
  29. Service (subst.) — serviço (no contexto da igreja, também pode ser culto. He never attends the morning service.)
  30. Support (subst.) — suporte (em vários contextos, melhor apoio ou mesmo incentivo)
  31. Support (vb.) — suportar (em vários contextos, melhor apoiar, sustentar)
  32. Take advantege (vb.) — tirar vantagem (por vezes, pode ser melhor se aproveitar de. She takes advantage of her sister’s willingness to help.)
  33. True (adj.) — verdadeiro (em alguns contextos, fiel)
  34. Virtually (adv.) — virtualmente (na maioria dos casos, praticamente. Virtually all the board members were at the meeting.)
  35. Well-educated (adj.) — bem-educado (em vários contextos, culto, instruído).

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Mais Tatiana Belinky

Do clipping PublishNews - 27/02/2008
A escritora Tatiana Belinky estará na Livraria da Vila da Vila Madalena (Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, tel. 11-3814 5811) no próximo sábado (01/03), a partir das 15h, para o lançamento do livro Limeriques da Cocanha
(Companhia das Letrinhas, 40 pp., R$ 28). No livro, ilustrado por Jean-Claude Alphen, a autora explora o imaginário sobre a Cocanha, apresentando aos leitores mirins essa terra da fantasia, inventada há séculos e desejada por muita gente. Uma terra onde não há nada melhor do que não fazer nada, povoada pela abundância, saúde e prazer. Nascida em São Pertesburgo em 1919, Tatiana foi a responsável pela primeira adaptação para a TV do Sítio do Picapau Amarelo. Informações pelo telefone 11-3814 5811.

***

Convém lembrar que, além de autora de livros infantis, Tatiana também é tradutora de obras importantes da literatura russa, como Almas Mortas de Nikolai Gogol.
Excelente oportunidade de trocar algumas palavras com uma profissional experiente da nossa área.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O esquecido ponto-e-vírgula

Quem teria a idéia de escrever sobre o ponto-e-vírgula? Neil Roberts, jornalista do New York Times, se prontificou. Redigiu um artigo curioso sobre o sinal de pontuação menos conhecido tanto no inglês quanto no português. Em Celebrating the Semicolon in a Most Unlikely Location, Roberts explica o que leva tanta gente a hesitar em usar esse sinal de pontuação.

Os dicionários Houaiss e Aurélio trazem definições semelhantes para o dito cujo: "
Sinal de pontuação (;) que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto". Oh, really? Se você também continuou na mesma, confira os exemplos esclarecedores do site Gramática On-Line e bom uso do tão esquecido ponto-e-vírgula!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Cursos com Lia Wyler em São Paulo

De 10 a 15 de março Lia Wyler , tradutora da série Harry Potter, compartilhará sua experiência profissional por meio de aulas sobre Fluência em Tradução. Serão oficinas para ajudar o profissional do texto (tradutores, escritores, revisores) a redigir com clareza, naturalidade e precisão. O objetivo do curso é capacitar o aluno a responder a questões como:
1. O que é português fluente?

2. O que é concisão?

3. O que é clareza?

4. O que é tradução fluente?

Para obter todas as informações sobre os cursos visite o site da Malk Comunicação.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Happy Valentine's Day?

A meu ver, quem trabalha com a língua inglesa faz bem em manter contato com as culturas em que o idioma é falado. Daí a lembrança de que em vários países comemora-se no dia 14 de fevereiro Valentine' s Day. Traduzido com freqüência como "Dia dos Namorados" (um equivalente não muito exato, pois, pelo menos nos Estados Unidos e Canadá, a data também é comemorada entre amigos e parentes), Valentine's Day tem uma história rica que, como outras datas comemorativas, entretece cristianismo, paganismo e comércio. O periódico Christianity Today traz um artigo curto com um resumo dessa história e mostra a mudança de significado do termo Valentine ao longo dos séculos. Quem quiser saber mais pode seguir os links no final do artigo.

Não obstante as origens e o significado da data, uma forma apropriada de comemorá-la é lembrar das palavras do apóstolo João sobre o verdadeiro amor:
"Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos" (1Jo 3.16).

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Fidelidade

Há tempos estou lendo em doses homeopáticas Quase a mesma coisa – experiências de tradução (Record, 2007; trad. Eliana Aguiar), o texto instrutivo e espirituoso de Umberto Eco sobre a fidelidade na tradução.

Como fã de carteirinha dos escritos de Eco, não sou a pessoa ideal para tecer comentários muito objetivos. Deixo registrado, apenas, que a leitura é de dar gosto até para os alérgicos à teoria da tradução. Quem quiser saber mais sobre Quase a mesma coisa pode ler uma crítica extensa e pertinente no Jornal do Brasil (indicada pela Paula Góes em seu post sobre o livro na Liga dos Tradutores).

Abaixo, trechos da introdução que resumem o modo como Eco trata do tema:

O que quer dizer traduzir? A primeira e consoladora resposta gostaria de ser: dizer a mesma coisa em outra língua. Só que, em primeiro lugar, temos muitos problemas para estabelecer o que significa “dizer a mesma coisa” e não sabemos bem o que isso significa por causa daquelas operações que chamamos de paráfrase, definição, explicação, reformulação, para não falar das supostas substituições sinonímicas. Em segundo lugar, porque, diante de um texto a ser traduzido, não sabemos também que é a coisa. E, enfim, em certos casos é duvidoso até mesmo que quer dizer dizer. {...]

Eis os sentidos dos capítulos que se seguem: tentar compreender como, mesmo sabendo que nunca se diz a mesma coisa, se pode dizer quase a mesma coisa. [...]


O curso on-line Logos também trata da fidelidade em pelo menos duas unidades. Destaco alguns pontos interessantes da primeira:

Translations must be faithful. On this requirement there is a general consensus in the scientific community and among translators. On the condition that nobody should get the idea of questioning what is meant by "fidelity", of course. Because, in such a case, one would realize that the consensus is achieved by "fidelity" meaning something vague, generically positive, vaguely corresponding to "goodness". A good translation is always faithful. And a faithful translation is always good. Tout se tient. [...]

Actually, the notion of "fidelity" also traveled through centuries in the writings of people speaking about translation without tracing a reconstructable coherent guideline.
In the 17th century in France there was a wide diffusion of the so-called belles infidèles, the "free" translations. With an extended macho metaphor concerning the division of women in two parts: the beautiful ones (hence necessarily unfaithful) and the ugly ones (hence necessarily faithful), translations were catalogued in this way, too.
The "ugly ones" are considered "faithful" because they would follow the phrase and the lexical structure of the original step-by-step. The "beautiful" ones should be unfaithful because they don't, preferring to the original structure the structure best accepted in the receiving culture to the original, and to the original's lexicon a lexicon produced spontaneously.
Such a view of fidelity/infidelity, and the preference for the latter, had been endorsed already in 46 Ancient Era by Cicero in the work Libellus de optimo genere oratorum.
The most quoted and most meaningful sentence writes:

I translated as an orator, not as an interpreter of a text, with the same expressions of thought, with the same ways of rendering it, with a lexicon appropriate to our language's character. In them I have tried not to render word for word, but I maintained each character and each expressive efficiency of the very words. Because I thought not more convenient to the reader to give him, coin after coin, a word after another: rather, pay him his due in the entire sum.

From this passage it is clear that the text adaptation proposed by Cicero is closer to the sense of reading functionality than philological precision. All the more so when he states he translates "as an orator", i.e. as a person who wants himself well, and easily understood, and read, not "as an interpreter", i.e. not as a hermeneutist philologist of the original.
The notion of "faithful translation" is here considered analogous to "word-for-word translation", but neither is this over-two-thousand-years-old view is the only way to understand "fidelity".


O livro de Eco nos convida à essa reflexão acerca da fidelidade na prática diária. Seu último parágrafo propõe:

A conclamada “fidelidade” das traduções não é um critério que leva à única tradução aceitável [...] A fidelidade é, antes, a tendência a acreditar que a tradução é sempre possível se o texto fonte foi interpretado com apaixonada cumplicidade, é o empenho em identificar aquilo que, para nós, é o sentido profundo do texto e é a capacidade de negociar a cada instante a solução que nos parece mais justa.

Se consultarem qualquer dicionário, verão que entre os sinônimos de fidelidade não está a palavra exatidão. Lá estão antes lealdade, honestidade, respeito, piedade.


Qual é sua visão da fidelidade? Como você procura manter o texto traduzido fiel ao original?

sábado, 2 de fevereiro de 2008

De fraldas no templo

Removidas as bolinhas de naftalina, dada a ordem de despejo para as traças e desgrudadas as teias de aranha, eis uma versão semi-reciclada de um texto que escrevi alguns anos atrás para comemorar o dia 2 de fevereiro.

O que esse dia tem de especial?

Evangelho de Lucas, capítulo 2: Era um bebê como qualquer outro, ainda meio com cara de joelho. Quem o pegasse no colo não escaparia da curiosidade que enchia os olhinhos muito escuros e, com certeza, sentiria aquele cheiro de Danoninho que todo bebê parece ter.

Acompanhada do marido, a mãe do menino foi ao templo levar uma oferta de purificação, conforme a Lei de Moisés exigia. Os dois também aproveitaram a ocasião para apresentar a criança, pois era o primeiro filho e devia ser dedicado ao Senhor (Levítico 12, Números 3 e Deuteronômio 15.19).

Quando os pais do menino estavam oferecendo o sacrifício pela purificação, chegou um sujeito chamado Simeão. Para espanto geral, Simeão pegou o bebê no colo e disse:

“Senhor, agora eu posso morrer em paz! Pois eu o vi como o Senhor me prometeu que veria. Eu vi o Salvador que o Senhor prometeu dar ao mundo”.

Uma senhora muito idosa chamada Ana se aproximou na hora que Simeão estava falando e também começou a dar graças a Deus e dizer para todos que o Messias havia chegado.

Pois é. Lá estava ele, o Messias de fraldas.

Mas como foi que Simeão e Ana olharam para aquele pedacinho de gente – sem auréola na cabeça, sem raios de luz ao seu redor, sem coral de anjos nem efeitos especiais – e viram o Filho de Deus, o Cristo que veio ao mundo para nos salvar?

Tenho a impressão que a resposta está na descrição dessas duas pessoas.

De acordo com Lucas 2:

1) Simeão era devoto. Devoção quer dizer deixar uma porção de coisas de lado e voltar toda nossa energia e atenção para o objeto da devoção. É ter as prioridades em ordem.

2) Era cheio do Espírito Santo. Recebemos o Espírito Santo quando aceitamos Jesus como Salvador. Ponto e pronto. Mas, sem a devoção, o Espírito Santo fica soterrado debaixo de outras coisas mais “importantes”. Simeão dava espaço para o Espírito ficar bem confortável dentro dele e fazer o seu trabalho.

3) Vivia esperando o Messias. O Antigo Testamento tem uma porção de promessas sobre o Messias. Com a ajuda do Espírito, Simeão acreditava no que estava escrito na Palavra de Deus e vivia em função disso.

4) Ana adorava a Deus com orações e, muitas vezes, jejuava. Ela se admirava com o caráter de Deus e declarava seu amor profundo por ele. O jejum era sua forma de dizer para Deus que ele era mais essencial para a vida dela do que o próprio alimento.

5) Fazia plantão 24 horas por dia, 7 dias por semana no templo. Naquela época, o templo era considerado o lugar da presença de Deus. Assim, em outras palavras, Ana passava seus dias e noites na companhia de Deus. Hoje, nós que aceitamos a Cristo como Salvador somos o templo do Espírito de Deus! Quer a gente se dê conta ou não, ele está conosco o tempo todo.

Esses dois eram amigos chegados de Deus e como Jesus era “a cara do Pai”, não tiveram dificuldade em reconhecê-lo. Por isso, receberam o privilégio enorme de ver e segurar o menino e dar graças a Deus por ele.

E o que isso tudo tem a ver com o dia 2 de fevereiro?
Em algumas tradições cristãs esse dia marca o final do tempo de Epifania.
Deus se revelou ao mundo em Jesus no tempo de Maria, José, dos apóstolos, etc e tal (Epifania) e continua se revelando a nós à medida que nos relacionamos com ele. Às vezes, porém, essa revelação pode parecer insignificante, feito um bebezinho. Ana e Simeão mostram como enxergar além das aparências.

Talvez, você não concorde que o Salvador tinha cheiro de Danoninho, mas uma coisa é certa: ele sabia que não seria fácil deixarmos de lado nossas Grandes Ambições, nossos Trabalhos Importantes e Enormes Preocupações e conseguir vê-lo nas coisas pequenas, humildes, despretensiosas. Por isso, pouco antes de sua morte, orou ao Pai e pediu por você e por mim:

“Eles não fazem parte deste mundo mais do que Eu. Que o Senhor faça todos puros e santos, ensinando-lhes as suas palavras de verdade”.

“Eu revelei o Senhor a eles, e continuarei a revelar, para que o poderoso amor que o Senhor tem por mim possa estar neles, e Eu neles”. (João 17.17, 26)

Em 2008, mal acabamos de lembrar a revelação de Deus em Jesus e já é hora de começarmos a refletir sobre a Páscoa (a Quaresma começa na próxima quarta-feira).

Apesar de não ser católica romana, creio que este é um período especial e gostaria de desafiar você a escolher um dos quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas ou João) para ler e meditar sobre o que aconteceu entre o encontro do bebê Jesus com Ana e Simeão e o reencontro do Senhor ressurreto com o Pai no céu depois de terminar seu trabalho aqui na terra.

Que este possa ser um tempo de descobertas e aprendizado sobre nosso Salvador.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Profissionais X Internautas

A revista Língua Portuguesa traz uma reportagem sobre a tradução do último volume de Harry Potter para várias línguas. Nada de muito novo.
Interessante, porém, a comparação feita entre um trecho do texto de J. K. Rowling, a tradução do mesmo por Lia Wyler e aquela feita por um grupo de internautas. Uma boa oportunidade de apreciar as soluções encontradas por uma excelente profissional e compará-las com o resultado de um trabalho feito às pressas pela equipe de "tradutores amadores". Antes de criticar os bem-intencionados internautas, é importante não esquecer da contribuição de preparadores de texto, editores e revisores para a qualidade consideravelmente superior da tradução de Wyler.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Welcome, newbies!


Alguns consideram os novos profissionais que ingressam em nossa área uma ameaça. Outros, do alto de seus zilhões de anos de experiência, não se dignam sequer a chamá-los colegas. É verdade que toda profissão tem seus amadores e picaretas. Nem por isso é sábio torcer o nariz para aqueles que estão entrando no mercado. Por outro lado, não podemos ser ingênuos. Os iniciantes sérios têm pelo menos três características e devem ser recebidos de braços abertos por três motivos:

1. Procuram realizar seu trabalho de forma ética. / Precisamos de profissionais dedicados e leais para contrabalançar o amadorismo e a concorrência suja.

2. Esforçam-se para crescer em conhecimento e competência. / Precisamos de profissionais humildes, dispostos a reconhecer suas limitações e trabalhar para superá-las e a admitir seus erros e fazer todo o possível para não repeti-los.

3. Desejam contribuir para desenvolver sua área de atuação. / Precisamos de profissionais generosos, prontos a passar adiante suas experiências e conhecimento.

Na verdade, não só devemos acolher pessoas assim, como também necessitamos, com a graça e o auxílio de Deus, nos tornar pessoas assim: dedicadas, leais, humildes e generosas.

Por mais sérios e competentes que sejamos, não vamos viver para sempre neste mundo. Podem me chamar de Poliana idealista, mas se desejamos deixar um legado relevante para as futuras gerações de tradutores e fazer alguma diferença em nossa área, precisamos acolher os recém-chegados e trabalhar lado a lado com eles, ensinando e aprendendo, ajudando-os a encontrar seu lugar no mercado.

Que Deus nos ajude a superar o orgulho e os preconceitos e correr, juntos a carreira que nos está proposta (Hb 12.1-2).

Para não ficar só no discurso...

Quem está começando agora ou está considerando seguir a carreira de tradutor, pode encontrar dicas interessantes abaixo.

Artigo do Translator's Café para quem está pensando em seguir carreira.

Tradutor Profissional, um excelente blog no qual o tradutor Danilo Nogueira responde perguntas e fala sobre a realidade da profissão no Brasil.

Dez dicas para iniciantes do site Tips for Translators, que traz mais informações.

Guia resumido para iniciantes do site finlandês FILI.

Se você já está inserido no mercado, aproveite para compartilhar suas experiências.
Qual é sua dica para quem está começando agora? O que você faria de outra forma se estivesse em início de carreira? Quais os maiores desafios? Quais as recompensas?

sábado, 19 de janeiro de 2008

Quem trabalha conosco?

É sempre animador saber que sou apenas uma dentre várias pessoas empenhadas em levar as idéias do autor ao leitor. Neste segundo texto sobre quem trabalha conosco (ver 1 de outubro, 2007: Miriam de Assis - O assistente editorial), Lilian Melo Alves, supervisora de produção da Editora Mundo Cristão, descreve suas responsabilidades e sua relação com os tradutores. Muito obrigada, Lilian, por aceitar prontamente o convite para escrever estas linhas. Graças ao seu trabalho dedicado, o texto do Word na tela do meu computador se transforma em objeto palpável: veículo de idéias, instrumento de reflexão e estímulo para crescimento.

O supervisor de produção

Quando assisti pela primeira vez à apresentação de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), tive certeza de que Produção Editorial era a área profissional que me faria feliz. Vi que no curso eu teria a possibilidade de unir as duas coisas que mais me interessavam: texto e design.

no primeiro ano da faculdade, uma amiga comentou comigo seu desejo de trabalhar em editora de livros, e eu lhe disse que revista ou jornal era meu objetivo, por acreditar ser mais dinâmico. Confesso que me enganei completamente!

exerci alguns cargos em editora. Fui estagiária da área editorial e de produção gráfica, assistente editorial e hoje trabalho especificamente com produção. Uma das coisas que mais me entusiasmam é saber que meu trabalho é uma pequena parte de todo o processo responsável por levar o livro às mãos do leitor.

Algumas das minhas funções hoje consistem em trabalhar diretamente com o designer de capa, orçar e negociar com gráficas, criar projetos gráficos e enviá-los aos diagramadores, aprovar provas heliográficas e provas de cores das capas. Sempre que necessário, ajudo minha editora no planejamento, envio e recebimento dos trabalhos de textocomo tradução, preparação e revisão.

Planejar, organizar e cumprir um cronograma editorial exige que todos os colaboradores tenham em mente alguns objetivos imprescindíveis: cumprimento da visão e missão da empresa, qualidade do produto, prazo adequado, atendimento ao leitor e, principalmente, amor pelo que faz.

Uma vez decidida a publicação do livro, meu gerente, minha editora e eu nos reunimos para decidir quais colaboradores serão envolvidos no projeto. No momento da escolha do tradutor sempre temos de levar em consideração o “estilo” do livro e o “estilo” do tradutor, porque esse casamento se torna perfeito quando o tradutor consegue entender, sentir e reproduzir, em nossa língua, a mensagem do autor.

Considero o trabalho do tradutor um dos mais importantes no processo, pois, além de ser “o ponto de partidaapós a aprovação da obra, é o tradutor que faz a ponte entre a realidade do autor e a realidade do leitor.

Meu contato com os tradutores é quase sempre via e-mail ou telefone (é uma pena conhecer poucos pessoalmente!), mas procuro estar sempre disponível para ouvir suas dúvidas e/ou sugestões e resolver em conjunto. Esse contato sempre nos proporciona mais proximidade, apesar da distância. Não raro, as decisões no processo de tradução precisam ser discutidas com muito cuidado, a fim de manter fidelidade ao original e à língua de transição.

O zelo dos profissionais que lidam com o texto é tão significativo para mim como os processos de produção gráfica do livro. A cada publicação o sonho se renova. O mais gratificante, no entanto, é o testemunho dos leitores, que nos chega pelo correio ou por e-mail, relatando como a leitura de um de nossos livros mudou sua vida, traduzindo-se num presente de Deus.

Existe, ainda, outra coisa que me deixa muito feliz, e é quando, ao terminar seu trabalho, o tradutor compartilha conosco seu envolvimento emocional e espiritual com o texto. São momentos como esse que ratificam meu amor pelo faço. Espero que vocês sintam o mesmo!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Por falar em Tatiana Belinky...

No dia 12/01/08 comentei sobre a tradução da obra Almas Mortas de Gogol por Tatiana Belinky. Quem quiser saber mais sobre a vida e o trabalho da tradutora e escritora tem uma nova fonte de informação, conforme notícia do PublishNews - 15/01/2008:

Coleção Aplauso traz biografia de Tatiana Belinky Tatiana Belinky aprendeu a ler por volta dos quatro anos, em casa, com os bloquinhos de letras que o pai lhe presenteou dizendo que ela "podia fazer ponte, casinha, o que quisesse com eles". Ela não fez ponte ou casinha, mas começou a formar sílabas e a pronunciá-las. Foi assim que, antes dos cinco anos, já começava a se embrenhar pelo mundo das letras. Nunca mais parou. Durante a infância Tatiana aprendeu a falar letão, russo, alemão e iídiche. Mais adiante, ainda aprenderia inglês e português, mas considera o russo como a sua verdadeira língua. Tudo isso e muito mais está no livro Tatiana Belinky... E quem quiser que conte outra (IMESP, 240 pp., R$ 15), de Sérgio Roveri, publicado na Série perfil, da coleção Aplauso.

O livro pode ser adquirido pelo site da IMESP (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Ainda sobre os russos


Abaixo, alguns trechos da reportagem de Alexandra Moraes e Ernane Guimarães Neto publicada no jornal Folha de São Paulo em 13/01/2008 sobre a valorização das traduções diretas.

Novo chamariz, tradução direta deixa de ser luxo e vira exigência

Se os textos de Dostoiévski, Tolstói, Gógol e Tchékhov, entre outros, não eram totalmente desconhecidos dos leitores brasileiros, sua tradução direta do idioma original aportou por aqui como novidade tornada obrigatória há quase uma década. Tanto quanto o autor, a frase "traduzido diretamente do russo" virou chamariz.

"A quantidade e a velocidade atuais de publicação dos russos realmente não são inéditas", explica o professor da USP Bruno Gomide, pesquisador da recepção da literatura russa no Brasil, citando a "febre de eslavismo" dos anos 30 e a coleção de Dostoiévski da editora José Olympio nos 40.

"O que há de inédito é o fato de a tradução a partir do original russo ter se tornado uma exigência", diz. "Ademais, exige-se que sejam feitas com qualidade. Já nos anos 30 havia edições feitas a partir do russo, mas em geral eram apressadas, ou então excessivamente atreladas a interesses de grupos políticos."

[...]

Entre os principais tradutores dos clássicos estão Boris Schnaiderman, Paulo Bezerra e Rubens Figueiredo --que, desde 2003, lançou pela Cosac Naify textos de Tchékhov, Tolstói, Turguêniev e Górki. "Ele tem uma "quase bolsa" de tradução", diz o editor Paulo Werneck.

A tradução direta não é luxo: mostra contornos que ficariam embaçados em versões indiretas. Gomide diz que um dos mais beneficiados por elas é Dostoiévski, "o mais comentado dos ficcionistas russos na crítica brasileira e o mais cercado por lugares-comuns."

[...]

"Os russos, pela primeira vez em muito tempo, aparecem desvinculados da questão política", aponta Gomide. "A volúpia de se conhecer a "Rússia subterrânea", o "enigma soviético" ou qualquer tipo de "cor local" por meio da literatura está completamente ausente."


Saiba mais sobre:
Boris Schnaiderman
Paulo Bezerra
Rubens Figueiredo

sábado, 12 de janeiro de 2008

Almas mortas e tradutores-fantasmas


Passei a maior parte da semana entre o Natal e o Ano Novo entre quatro paredes dedicando-me a uma atividade inusitada para profissionais da área editorial: a leitura. Enquanto o sol brilhava sobre, ou melhor, estorricava os pobres turistas no litoral paranaense, descobri Nikolai Gogol, e sua obra-prima Almas Mortas.

A tradução de Tatiana Belinky parece ter captado bem as cores intensas com as quais Gogol pinta um retrato detalhado da Rússia agrária, onde o sucesso dos grandes proprietários de terra era medido pelo número de “almas”, isto é, de servos que possuíam. As descrições vão além das paisagens e costumes e dissecam a natureza humana com seus belos sonhos e virtudes, ambições ilícitas e hipocrisias.

As obras de Gogol são consideradas textos complexos que muitas vezes desafiam interpretações convencionais. Para quem não precisa se preocupar em tecer críticas literárias nem definir se Gogol foi o pai do modernismo russo ou apenas um escritor com uma vida extremamente atribulada, Almas Mortas é uma excelente maneira de fazer uma viagem por lugares exteriores e interiores nunca antes visitados.

Enquanto eu me refestelava com a leitura desse volume da coleção Obras-Primas da Editora Nova Cultural, mal sabia o que se passava no “mundo real”.
Em matérias publicadas em vários jornais e revistas no final de dezembro, foi revelado que em 60% dos títulos publicados nessa coleção os nomes dos tradutores originais foram substituídos por nomes de fantasia ou nomes verdadeiros de outras pessoas. Em reação, tradutores estão se unindo num abaixo-assinado para que a Nova Cultural dê os devidos créditos de tradução e se retrate publicamente.

Uma postagem de Fábio M. Said na Liga da Tradução fornece os principais detalhes desse cipoal. Vale a pena ler com atenção, também, o comentário de Adail Sobral acerca da postagem em questão.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

A videira


Em nossos dias, o sucesso de países, empresas e pessoas é medido por sua produtividade.
Num contexto em que os anseios internos e as necessidades externas nos pressionam a produzir incessantemente, as palavras de Jesus em João 15.5 nos dão a perspectiva correta: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer".
Por mais bem-sucedida que pareça, uma existência separada da verdadeira Fonte de vida é incapaz de dar frutos duradouros.

Em 2008, permaneçamos em Cristo a cada dia, buscando nele tudo que precisamos para ter uma vida repleta de significado e de frutos benéficos para o mundo presente e relevantes para nossa existência eterna.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

CCJ da Câmara aprova lei contra estrangeirismos

Da Agência Estado
Denise Madueño, de Brasília
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou na manhã desta quinta-feira (13 de dezembro) projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) que proíbe o uso de estrangeirismos no país.

Pelo projeto, toda palavra ou expressão escrita em língua estrangeira e destinada ao conhecimento público no Brasil virá acompanhada, em letra de igual destaque, do termo ou da expressão correspondente em português.
Isso inclui os meios de comunicação de massa, as mensagens publicitárias e as informações comerciais.
No caso de documentos da administração pública, o uso do português é obrigatório. A punição para os infratores ainda será definida em lei.
O projeto já foi aprovado pelo Senado, e agora falta apenas a votação pelo plenário da Câmara.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Traduzir é uma vocação?

Comecemos pela definição do termo “vocação”:

Houaiss

1. Disposição natural e espontânea que orienta uma pessoa no sentido de uma atividade, uma função ou profissão; pendor, propensão, tendência. / 2. Derivação: por extensão de sentido: qualquer aptidão ou gosto natural; disposição, pendor, talento.

Aurélio

1.Ato de chamar. / 2.Escolha, chamamento, predestinação. / 3.Tendência, disposição, pendor. / 4.P. ext. Talento, aptidão.

O sentido em inglês é um pouco diferente:

American Heritage Dictionary

1. A regular occupation, especially one for which a person is particularly suited or qualified. / 2. An inclination, as if in response to a summons, to undertake a certain kind of work, especially a religious career; a calling.

A julgar por essas definições, parece correto chamar a atividade de alguns tradutores de vocação. Apesar de nem todos possuírem a disposição natural, o talento e o chamamento de cunho religioso, muitos enxergam sua ocupação por esse prisma.

A forma como encaramos o trabalho influencia pequenas e grandes decisões e define o aspecto de nossa rotina. Daí, a importância de refletirmos sobre a questão com uma visão bíblica.

Sem entrar, por ora, em considerações mais profundas sobre “chamamento”, gostaria de ressaltar algumas considerações bastante pertinentes da obra O Cristão e a Cultura (Ed. Cultura Cristã, 2006, 2ª ed., trad. Elizabeth S. C. Gomes) acerca do cristão e sua atividade profissional (negritos meus).

Como uma pessoa moderna pode entender o salmista perdido na impotência do seu lugar no universo? [...] (SL 8.3-6,9) Não é de admirar que João Calvino tenha iniciado suas Institutas dizendo que começar pela contemplação da própria existência, ou da existência de Deus, levava finalmente ao mesmo lugar. Não temos existência independente, mas se tirarmos Deus da nossa visão de mundo (e sabemos que os cristãos também podem fazer isso) ou se o empurrarmos para a área “espiritual”, enquanto nosso trabalho diário continua sendo basicamente “secular”, a maior parte do nosso tempo será gasta naquilo que consideramos ser uma atividade desprovida de significado. É a teologia que dá significado a todas as atividades da existência humana.

Como, nos dias atuais, raramente relacionamos a teologia com a vida (ou seja, não ligamos o vertical com o horizontal), raramente somos confrontados com as reflexões do salmista. Raramente somos cativados pela percepção da nossa pequenez que se transforma na percepção de significado com base na vocação que Deus nos deu como suas criaturas especiais. O salmista não disse, depois de reconhecer a sua relativa insignificância diante da escala cósmica: “Mas afinal de contas, eu sou o diretor-executivo e consegui muito na minha carreira” [...] Sua importância vinha do reconhecimento, não do que havia realizado, mas do fato de que Deus havia lhe dado uma vocação. [...]

Pelo menos em teoria, se alguém tem essa perspectiva vertical e vê o seu trabalho como um serviço a Deus e ao próximo, até mesmo as tarefas mais simples ganham significado. [...] Deus nos dá a graça de ver toda a vida da sua perspectiva, tudo o que fizermos, por mais simples, mais comum, é feito sob os auspícios do nosso mestre divino. [...]

Um dia, um senhor [...] passou por um lugar em que havia uma construção em andamento. Ele perguntou aos trabalhadores: “O que estão fazendo?”. Um disse: “Estou quebrando pedras da pedreira”. Outro respondeu: “Sou responsável por fazer a argamassa que juntará as pedras”. Um terceiro homem, coberto de lama, empurrava um carrinho de mão, e parou apenas um tempo para dizer com prazer e orgulho: “Estou construindo uma catedral”. O que estamos fazendo com nossa vida? Trabalhando para o final de semana ou construindo uma catedral? Os três homens estavam envolvidos na mesma obra, mas somente um tinha uma visão geral da mesma. Longe da perspectiva transcendente (divina, vertical, teológica), vemos apenas os detalhes da rotina diária: eu registro informações de contabilidade, eu limpo a casa, eu julgo os casos no tribunal, eu digito a correspondência [...] e assim por diante. Porém, quando começamos a assinar as composições das nossas músicas do dia-a-dia com o “Soli Dei Gloria” – Só a Deus a glória – como Bach fazia, até mesmo o trabalho mais enfadonho ou corriqueiro torna-se divino.

Se até mesmo a tarefa mais enfadonha ganha nova dimensão ao ser considerada sob a perspectiva divina, o que dizer da ocupação à qual nos dedicamos com prazer? Quer trabalhemos com textos “cristãos” ou “seculares”, dia após dia, somos capacitados por Deus para traduzir para a glória dele. Se nos esquecermos disso, até mesmo o projeto mais gratificante perderá o sentido. Deus continuará a ser glorificado por meio de outros profissionais e outros trabalhos e continuará a suprir todas as nossas necessidades, mas perderemos parte da alegria de exercer nossa vocação.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Oficinas

Oficinas promovidas pela revista Língua Portuguesa em São Paulo:

Revisão de textos: gramática e estilo
07, 14, 21, 28 de janeiro às 19h30

Arquitetura do discurso: da palavra ao texto
12 e 19 de janeiro às 9h

Comunicação eficaz
09, 16, 23 e 30 de janeiro às 19h30

Formação inicial de escritores
15, 16, 21 e 22 de janeiro às 19h30

Informações e inscrições: aqui

Local: Editora Segmento
Endereço: Rua Cunha Gago, 412 - 6 º andar, Pinheiros - São Paulo
Tel: (11) 3039-5696 / 3039-5600
E-mail:
oficinas@revistalingua.com.br

Valores:

Valor Normal: 4x R$ 55,00
Valor promocional para assinantes: 4x R$ 44,00
Valor promocional até dia 20/12: 4x R$ 49,50

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Perfeitamente falhos


Alguns profissionais não têm margem muito ampla para cometer erros. É o caso de cirurgiões, pilotos e editores. Quem escolhe essas ocupações tende a buscar sempre resultados perfeitos.

Um bom tradutor precisa ser perfeccionista? A meu ver, a resposta é afirmativa com uma ressalva: só no trabalho. Easier said than done... mas é fato que surgem dificuldades quando essa característica transborda do âmbito profissional para outras áreas como a vida doméstica, aparência, hobbies e relacionamentos em geral.

É dessa questão que trata o artigo Unhappy? Self-Critical? Maybe You’re Just a Perfectionist de Benedict Carey, publicado no jornal New York Times. Abaixo, alguns trechos dignos de nota:

Unlike people given psychiatric labels, however, perfectionists neither battle stigma nor consider themselves to be somehow dysfunctional. On the contrary, said Alice Provost, an employee assistance counselor at the University of California, Davis, who recently ran group therapy for staff members struggling with perfectionist impulses. “They’re very proud of it,” she said. “And the culture highly values and reinforces their attitudes.” [...]

Ms. Provost said [the participants] in her program at U.C. Davis often displayed symptoms of obsessive-compulsive disorder — another risk for perfectionists. They couldn’t bear a messy desk. They found it nearly impossible to leave a job half-done, to do the next day. Some put in ludicrously long hours redoing tasks, chasing an ideal only they could see.

As an experiment, Ms. Provost had members of the group slack off on purpose, against their every instinct. “This was mostly in the context of work,” she said, “and they seem like small things, because what some of them considered failure was what most people would consider no big deal.”

Leave work on time. Don’t arrive early. Take all the breaks allowed. Leave the desk a mess. Allow yourself a set number of tries to finish a job; then turn in what you have.

“And then ask: Did you get punished? Did the university continue to function? Are you happier?” Ms. Provost said. “They were surprised that yes, everything continued to function, and the things they were so worried about weren’t that crucial.”

The British have a saying that encourages people to show their skills while mocking the universal fear of failure: Do your worst.

If you can’t tolerate your worst, at least once in a while, how true to yourself can you be?

sábado, 1 de dezembro de 2007

Constance Garnett e os russos

Quando comecei a ler Guerra e Paz de Tolstoy em inglês, a primeira coisa que procurei no livro foi uma introdução ou comentário sobre a tradutora Constance Garnett. Como se trata de uma daquelas edições populares da Barnes & Noble, o livro mal e mal tem capa, quanto mais informações relacionadas à tradução. Coincidentemente, semana passada, encontrei um artigo de David Remnick na revista New Yorker sobre Constance Garnett e outros profissionais que traduziram os grandes escritores russos. O artigo é longo, mas vale a pena.
Sobre o estilo por vezes desleixado de Garnet, Remnick comenta:

Garnett’s flaws were not the figment of a native speaker’s snobbery. She worked with such speed, with such an eye toward the finish line, that when she came across a word or a phrase that she couldn’t make sense of she would skip it and move on. [!!!] Life is short, “The Idiot” long. Garnett is often wooden in her renderings, sometimes unequal to certain verbal motifs and particularly long and complicated sentences.

O artigo também descreve o processo de trabalho de uma das traduções mais recentes de The Karamazov Brothers e fala do trabalho de Vladimir Nabokov como tradutor. Aliás, é dele o poema sobre a impossibilidade da tradução:

What is translation? On a platter
A poet’s pale and glaring head,
A parrot’s screech, a monkey’s chatter,
And profanation of the dead.
The parasites you were so hard on
Are pardoned if I have your pardon,
O Pushkin, for my stratagem.
I travelled down your secret stem,
And reached the root, and fed upon it;
Then, in a language newly learned,
I grew another stalk and turned
Your stanza, patterned on a sonnet,
Into my honest roadside prose—
All thorn, but cousin to your rose.

A tradução de Garnett pode não ser impecável, mas, uma vez que meu conhecimento de russo se limita a palavras como vodka, samovar e perestroika, não posso tecer nenhuma crítica fundamentada. De um modo geral, a linguagem é clara e, apesar de todos os nomes, sobrenomes, patronímicos, apelidos, frases em francês, notas de rodapé e notas finais (ufa!), acredite ou não, a história flui e envolve.

Ou a narrativa de Tolstoy é tão extraordinária que sobreviveu a uma tradução muito aquém do ideal, ou Garnett, apesar de suas falhas, conseguiu captar a voz do autor e as ironias, o heroísmo e o espírito da época. Talvez um pouco dos dois...

Para quem quiser ler mais sobre Tolstoy e os personagens de Guerra e Paz, a mesma revista traz um artigo esclarecedor de James Wood.