sábado, 12 de abril de 2008

A mãe de todas as virtudes

Mais um trabalho com prazo absurdamente curto. Desta vez, o texto a ser traduzido é de um autor que eu não gosto muito. O Word travou de novo. Nenhum dicionário explica essa palavra direito. E por que minha conexão está tão lenta? Acordei com dor de cabeça. Chuva outra vez? Meu cabelo está horrível! Gostaria que alguns amigos dessem notícias com mais freqüência. Por que os biscoitos têm cada vez menos recheio? Não suporto fila em supermercado. Aliás, os preços estão pela hora da morte. E o que dizer das ruas esburacadas, muros pichado, lixo nas calçadas? Ah, se eu morasse no Canadá...

Bem-vindo aos meus pensamentos. Alguns deles são relacionados a problemas legítimos para os quais é possível encontrar soluções igualmente legítimas. A questão não é essa. A questão é a minha atitude mental em relação a esses problemas. Como lido com a insatisfação enquanto providencio soluções? E o que fazer quando não posso mudar aquilo que me deixa insatisfeita?

Algumas fontes de descontentamento são coisas pequenas da rotina de trabalho ou da casa. Outras são mais sérias, associadas ao rumo que a vida está tomando. Não importa. O que importa é saber onde fica a gratidão em meio a esses padrões de pensamento.

A gratidão deveria ser o resultado lógico do reconhecimento da soberania de Deus sobre minha vida. Deveria brotar espontaneamente da consciência de que ele provê tudo de que necessito, inclusive o bom senso e a sabedoria para enfrentar pequenos e grandes desafios. Deveria transbordar naturalmente de um coração que ama Deus. Será?

Mesmo depois de sermos regenerados e remidos por Deus, precisamos passar pelo processo de santificação que se estende até o dia em que veremos o Senhor face a face.

Como tantas outras virtudes, a gratidão é cultivada ao longo desse processo. É um hábito. De acordo com o Dicionário Aurélio, “hábito” é uma “disposição duradoura adquirida pela repetição freqüente de um ato, uso, costume”. Repetição freqüente.

Cultivada repetidamente com a graça e o auxílio de Deus, a gratidão transforma o modo como vemos o mundo, fortalece nosso espírito para os desafios diários e, acima de tudo, tributa a Deus a glória e o louvor que lhe são devidos.

Em seu artigo Gratitude: Pathway to Permanent Change (ver trechos selecionados abaixo), publicado em Faith in the Workplace, Michael Zigarelli trata dos frutos da gratidão e sugere maneiras de cultivá-la na vida diária. O artigo é longo e traz uma ou outra colocação que, a meu ver, precisa ser analisada com espírito crítico, mas vale a pena ler e colocar em prática algumas das sugestões.

Sei que, pela graça de Deus, meu coração pode ser transformado e o padrão de meus pensamentos pode mudar para algo como:

Senhor, muito obrigada por mais um trabalho. Obrigada por me dar forças e capacitação para cumprir os prazos. Obrigada porque, mesmo não sendo meu autor predileto, este sujeito tem abençoado muita gente. Obrigada porque tenho acesso a tanta tecnologia. Obrigada porque o Senhor tem me dado saúde. Obrigada porque o Senhor me criou da forma como sou (cabelos rebeldes e tudo). Obrigada pela chuva, por meus amigos, pelo alimento. Obrigada porque o Senhor tem propósitos para a minha vida neste país, neste bairro. Obrigada porque o Senhor tem provido os meios para eu viajar e desfrutar as belezas da sua criação em outras partes do mundo.

Obrigada!

Gratitude: Pathway to Permanent Change
Michael Zigarelli

[…] Centuries ago, the philosopher Cicero argued that among virtues, gratitude is "the parent of all the others," a virtue that begets other virtues. There seems to be a lot of truth to that claim. Growing one's gratitude appears to have a radical and transformational effect on character because it is one of God's primary vehicles for inducing (or "parenting") other Christian qualities. […]

Gratitude does all this by setting a new thought context for processing our circumstances in life—a context of an abundant life. A context where everything we have is a gift. A context where we see clearly all that we really do have in life, and where we recognize that things could always be worse. Within this context, our view of the entire world is different and we are suddenly empowered to be the people God calls us to be—to more deeply love God, to love neighbor, and to love our own lives. To be authentic salt and light at home, at work, at church, and everywhere else.

[…] gratitude is positively related to such critical outcomes as life satisfaction, vitality, happiness, optimism, hope, empathy, and the willingness to provide emotional and tangible support for other people, while being negatively related to anxiety, depression, and overall disposition. […]

Growing Gratitude by Disciplining Your Mind

[…] We've all experienced moments in life when we suddenly become cognizant of the enormity of blessing in our life. A narrowly-averted collision with a tractor-trailer. A momentarily-lost child at the store. […] An eye-opening missions trip to a destitute area. A clarifying moment of watching our children sleep.

A wave of thankfulness quickly follows such events and lasts for as long as we remain mindful of the blessing. During that time, we experience significant manifestations of Christian virtues. We become more Christ-like in our disposition toward everyone and everything. But—and most of us have experienced this as well—the empowerment vanishes as suddenly as it appeared, and we're back to being the people we were before. The transformation, while welcome and wonderful, was fleeting. That's the nature of gratitude. It's a generator of other virtues, but only so long as it exists.

I found that one of the major secrets to success for "high-virtue Christians"—those who are most consistently Christ-like—is that they have mastered the art of maintaining a grateful disposition. Gratitude is simply part of who they are, rather than being some sporadic, refreshing occurrence. How do they do it? How do they nurture and sustain a grateful spirit?

In a sentence, they think differently from the way many of the rest of us think. The mind of the high-virtue Christian, it seems, is a disciplined mind, a pure and godly mind. A mind that is adept at immediately clearing away sinful thoughts. It is a mind that is focused on what one has rather than what one does not have. A mind that refuses to think in terms of what's missing from life—in terms of how much better life could be "if only … " Instead, the high-virtue Christians in my study want what they have. They are fully content with what's been conferred upon them, and they frequently thank God for their blessings. […]

What do high-virtue Christians think about instead of entertaining envious thoughts? Where are their minds during their day-to-day routines? Here's a striking statistic that reveals one of the key differences between high- and average-virtue Christians: Four out of five high-virtue Christians consistently remember throughout the day how God has blessed them. Only two out of five average-virtue Christians say they do this.

One might reasonably ask at this point: Are these people thanking God more than others do because they are well-off financially? Because they have more material possessions? Because they have more temporal assets than do others? These are not the reasons for their gratitude. In fact, I found that gratitude may be related to having fewer worldly goods. […]

What does drive gratitude is proper perspective. Seeing clearly. Remaining mindful moment-to-moment of what God has bestowed upon you. High-virtue Christians are perpetually aware of their bountiful life, regardless of what that life entails. They have trained their minds to think about the abundance in their lives rather than the insufficiencies. And it is this habit—a habit of keeping perspective—that transports them to the next level of gratitude and of character.

[…]

A Summary of the Recommendations for Growing and Sustaining Gratitude

  • Make a habit of thinking about the blessings in your life and thanking God for them. Make this a practice throughout every day. Consider keeping a daily "gratitude journal" to formalize this process of identifying the blessings.
  • Watch for envy. Regularly examine yourself to identify where and when you are envious and work toward rejecting such thoughts when they creep into your mind. Replace those thoughts with thanks to God for what you do have in life.
  • Practice the disciplines of periodic fasting and regular confession of sin with one aim being a clearer understanding of the gifts bestowed on you in life.
  • Expose yourself to information about the dire condition of others around the world and make prayer for these people a staple of your prayer life.
  • Create other habits that remind you of how blessed you are and of how much worse life could be.
  • Engage in this gratitude-growth program as part of a broader program to become a more God-centered person.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Escreva melhor em inglês


Quem trabalha com versões precisa, além de amplo vocabulário na língua-alvo, bom conhecimento da estrutura gramatical e organização das idéias na cultura-alvo. Muita gente pensa que todo tradutor também faz versão, mas nem sempre é (ou deve ser) o caso.
Quem traduz para o português e deseja realizar trabalhos de versão precisa estar bem preparado. Em hotéis, restaurantes e guias turísticos, por exemplo, não é raro encontrar textos versados para o inglês capazes de deixar confuso ou irritado até o mais pacato dos visitantes estrangeiros.

Salvo raríssimas exceções, não me atrevo mais a fazer esse tipo de trabalho. Quando era jovem e temerária, porém, sempre procurava modelos antes de reescrever em inglês o texto que havia recebido em português. Se precisava versar o site de um hotel, por exemplo, buscava modelos de frases nas páginas de estabelecimentos desse tipo em países de língua inglesa.

Culturas diferentes transmitem informação de formas diferentes. Infelizmente, essa afirmação óbvia nem sempre é levada em consideração nas versões. Versar implica raciocinar como alguém da cultura-alvo. A mudança na forma de pensar influirá na escolha dos vocábulos e na estruturação de frases e parágrafos.

Para pensar como um estrangeiro, é preciso ter um mínimo de convívio com a cultura e uma compreensão básica dos valores do seu povo.

A questão da compreensão cultural é tema para posts futuros. Por ora, sugiro apenas uma lista de sites úteis para quem deseja melhorar a redação em inglês.

Do portal about.com:
Basic sentence structures
Writing lessons
Business writing

Mais sobre business writing:
Eight lessons

Ótimo artigo em português, com explicações sobre diferenças entre inglês e português e dicas práticas:
Como redigir corretamente em inglês

Para quem quiser investir em um livro, sugiro 100 Ways To Improve Your Writing, de Gary Provost.

sábado, 29 de março de 2008

Nenhum tradutor é uma ilha

O profissional que trabalha em casa talvez seja, por natureza, uma pessoa menos sociável, pelo menos no que diz respeito aos relacionamentos face a face. Isso não significa, porém, que deseja manter-se isolado do resto do mundo. Como evitar o isolamento nesse contexto de trabalho? O artigo abaixo, publicado originalmente no site Proz.com dá algumas dicas.

How to Avoid Isolation in Your Home Office

By Anna Villegas

Steps:

1. Fess up to your need for human contact. Just because you're going stir crazy doesn't mean that you made the wrong decision when you decided to work from home - just that you need to make some changes.

2. Make lunch plans with friends or colleagues who work in your profession. If possible, arrange to meet with them the same day every week for a little socializing and networking.

3. Pick up the phone and call some of your colleagues, especially if you have any who also work at home. They may be in the same boat.

4. Send e-mail to friends and colleagues; it's the cost-free way to keep in touch, even with people halfway across the globe. Just don't forget to make some plans to meet people in person, as well.

5. Join a professional organization, then get out and attend any classes, lectures or social events the organization sponsors.

6. Consider working in an office environment one day a week.
If you're a high-tech-translator telecommuter, arrange with your boss to work at the office occasionally. If you are a freelancer, see if any of your clients would like you to work at their offices some days.

7. Get out of the house, even if only for a walk around the neighborhood or a trip to the store. Don't let yourself fall into the trap of spending all day, every day, inside your home.

8. If the above aren't enough to keep you feeling plugged in, consider forming a business partnership with one or more colleagues; perhaps sharing your goals and interests with someone else will provide the stimulation you need.

Às dicas acima, eu acrescentaria:

9. Considere a possibilidade de realizar algum tipo de trabalho voluntário relacionado ou não à sua área.

10. Pense em participar de cursos, seminários e eventos que não sejam diretamente relacionados à sua área a fim de “mudar de canal”. É ótimo manter um relacionamento mais próximo com outros tradutores e profissionais do nosso meio, mas também é extremamente saudável interagir com pessoas dedicadas a outras ocupações.

11. Lembre-se de exercitar o corpo. A atividade física moderada ajuda a manter a capacidade mental em dia e aliviar as tensões.

Mais discussões sobre o assunto:
All Freelance Directory
Lifehacker

Se você trabalha em casa, como procura evitar o isolamento?

quinta-feira, 20 de março de 2008

Cristo ressuscitou! Em verdade, ressuscitou!


Que Deus nos conceda a graça de traduzir fielmente em nossos atos visíveis as realidades invisívies celebradas na Páscoa.

Que possamos aceitar e anunciar a ressurreição enquanto esperamos o grande dia em que pessoas de todas as línguas, povos e raças verão, face a face, o Cristo ressurreto.

Al Maseeh qam!
Haqqan qam! - Arabic

Qristos haryal э y merelotz!
Haverzh ordnyal э harutiune Qristosy! - Armenian

Krishti Ungjall!
Vertete Ungjall! – Albanian

Krista welila kabô siuw tchela!

Thcièna ôkera – Bambara

Tsesa dolehisanahi!

oodoyuhi Tsesa dolehisanahi! – Cherokee

Helisituosi fuhuole.
Queshi fuhuole. - Chinese

Christ is Risen!
Indeed, He is Risen! – English

Kristo levigîs

Vere levigîs.Esperanto

Christos T'ensah Em' Muhtan!
Exai' Ab-her Eokala! - Ethiopian

Kristus nousi kuolleista!
Totisesti nousi! – Finnish

Christ est ressuscite !
En verite il est ressuscite ! - French

Taw Creest Ereen!
Taw Shay Ereen Guhdyne! - Gaelic

Christ ist Erstanden!
Wahrlicht Erstanden! - German

Christos Anesti!
Alithos Anesti! - Greek

Ha-Mashiah qom!
Be-emet qom! – Hebrew

Massih jee uthhā hai!

Vāstav mẽ vo jee uthhā hai! – Hindi

Kristur reis upp!
Sannlega reis han upp! – Icelandic

Cristo è risuscitato!

In verità è risuscitato. – Italian

Krestos a uprisin!
Seen, him a uprisin fe tru! - Iyaric Patw

Harisutosu Fukkatsu!
Jitsu Ni Fukkatsu! – Japanese

Kristu ua fukunuka!

Kidi muene ua fukunuka! – Kimbundu

Kristo Gesso!
Buhar ha sho Nay! - Korean

Christus resurrexit!
Vere resurrexit! - Latin

Christus er Oppstanden!
Sandelig Han er Oppstanden! - Norwegian

Chrystus zmartwychwstal!
Zmartwychwstal prawdziwie! – Polish

Kristu kawsarirusqa!

Cheqaptapuni kawsarirusqa. – Quechua

Christos a Inviat!
Adeverat a Inviat! - Roumanian

Christos voskres!
Voistinu voskres! - Russian

Christos aftooun.
alethos aftooun. - Sahidic Coptic

Kristo'pastitaha,
Satvam Upastitaha! - Sanskrit

Cristo esta resucitado!
En verdad, esta resucitado! - Spanish

Meshiha qam!
Bashrira qam! - Syriac

Kristos Ame Fu Fuka!
Kweli Ame Fu Fuka! - Swahili

Kristus ar Upstanden!
Sannerligen Upstanden! – Swedish

Mesih dirildi!

Gerçekten dirildi! – Turkish

Jesu jinde!

nitotọ, O jinde! - Yoruba

Ukristu Uvukile!
Uvukile Kuphela! - Zulu


Para ler e ouvir a saudação de Páscoa em 250 línguas, acesse Pascha Polyglotta.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Dicas para um texto mais limpo

Há tempos estou ensaiando para repassar estas dicas do departamento editorial da Ed. Mundo Cristão. Espero que sejam úteis para deixar seu texto “limpinho”.

1. Eliminar, ao máximo, pronomes possessivos, típicos do inglês (seu, sua, meu, minha etc.), que poluem o texto (quando não são óbvios: mantinha em minha mente etc.) e não devem ser usados em português, a menos, é claro, que sejam necessários.

2. Evitar o uso do artigo indefinido (um, uma), comum no inglês. Não diga: “Ele era um pastor”; diga: “ele era pastor”. Usar o artigo apenas quando for de fato necessário para o contexto em português.

3. Não usar artigo diante do possessivo: Em vez de “Na sua casa...”, prefira “Em sua casa”; em vez de “a sua opinião se destacava...”, prefira “sua opinião se destacava...”. Use o artigo apenas quando necessário.

4. Nas comparações, não use a preposição “de”: Em vez de “esse livro é mais antigo do que aquele”, prefira “esse livro é mais antigo que aquele”.

5. Opte sempre por uma redação enxuta e clara. Evite: gerúndios, preferindo o infinitivo; “estar + gerúndio”; formas passivas, usando-as com critério; iniciar frases com “e”, “mas”, “porém”, etc., típicos do inglês.

6. Cuidado com a repetição de palavras num mesmo período e dos advérbios terminados em “mente”. Busque sinônimos ou expressões equivalentes.

7. Cuidado com ecos (“ão”, por exemplo).

8. Cuidado com o posicionamento dos advérbios, que em inglês ficam quase sempre no mesmo lugar, mas não em português.

9. Se necessário à clareza, inverta frases, junte-as ou separe-as.

10. Evite períodos longos. Pontue de modo a pausar e privilegiar o entendimento.

11. Cuidado com expressões como “tudo que”; se tiver de mantê-las, use “tudo o que”.

12. Não use “qualquer” no sentido de “nenhum”. Em vez de : “Não tinha qualquer objeção”, use “não tinha nenhuma objeção”.

13. Evitar o plural distributivo:

• Nossas vidas (a menos que a editora seja espírita).

• Nossas mentes (a menos que o revisor seja o Smigol).

• Nossos corações (a menos que se tenha passado por uma cirurgia extraordinária).

• Nossas mulheres (a menos que a poligamia seja prática corrente na legislação civil). Dê preferência para: “As mulheres do nosso país”, “As mulheres da igreja” etc.

• Vida, mente, coração são genéricos. O mesmo não acontece com “nossos olhos”, “nossos braços”, “nossos pensamentos”, “nossos pecados” etc.

14. Cuidar com o excesso de queísmo, voceísmo e gerundismo:

Você entendeu que é isso o que nós queremos que você evite e que você não cometa. Vamos estar lembrando você de que você não pode estar se esquecendo de que não deve estar empregando muito o gerundismo.

15. Evitar cacofonia

• Mantenha sempre esta ordem: Adão e Eva. Nunca use “Eva e Adão” (o leitor tende a ler Évi-adão”).

• Outros exemplos: boca dela, ela tinha (neste caso, inverta a ordem: Tinha ela grande fé; ou reescreva a frase), fé demais, nunca gasta, por cada etc.

16. Não usar expressões cujo emprego, embora correto, podem desviar a atenção do leitor:

• Gozar (substitua por “desfrutar” etc.).
• Clímax (prefira “apogeu”, “auge” etc.).
• Abundar (substitua por “sobejar” ou outro termo mais apropriado).

17. Cuidar com o uso de “mente”, o eco mais comum: Ela agia repentinamente. Invariavelmente, a gatuna não media esforços de, costumeiramente, furtar objetos da igreja. Infelizmente.

18. Evitar muletas lingüísticas — Seja preciso. Busque a palavra exata para comunicar corretamente o sentido pretendido pelo autor. Como disse Adriano da Gama Kury: “A variedade traz beleza”. Vade-retro pobreza vocabular!

19. Evitar verbos genéricos — verbos como dar, dizer, estar, fazer, ser e ter devem ser substituídos por palavras mais precisas. Veja estes exemplos extraídos de Para falar e escrever melhor o português, de Adriano da Gama Kury:

• Deu muitos livros à biblioteca (substitua por doou, ofertou).
• Esse provérbio diz uma grande verdade (substitua por ensina).
• O problema está na escolha certa (substitua por reside, consiste, depende da).
• Fizeram um novo prédio sobre as ruínas (substitua por construíram, edificaram).
• A vida é luta (substitua por resume-se em, consiste em).
• Ele tem muitas fazendas (substitua por é dono de, possui).


Se você tem outras dicas, aproveite para compartilhá-las aqui.

sábado, 15 de março de 2008

Na reta final da Quaresma

Estamos na última semana da Quaresma. Quem não é católico talvez considere esses quarenta dias entre o Carnaval e a Páscoa apenas um longo e árduo intervalo entre um feriado e outro. A meu ver, porém, a Páscoa constitui, para qualquer cristão, a ocasião que define sua identidade e suas crenças.
Comparada com a Páscoa, a comemoração do Natal parece até meio light; é muito mais cômoda e fácil de aceitar e participar. Mas o que dizer dos acontecimentos do Calvário e do terceiro dia depois? Nada exige de nós uma decisão tão clara quanto a morte e ressurreição de Cristo.
Entra em cena a Quaresma.
Não estou dizendo para passarmos a semana jejuando ou andando por aí vestido de panos de saco e com cinzas na cabeça. Sugiro apenas que separemos estes dias que antecedem uma data tão importante para refletir um pouco.
A proposta pode parecer fácil, mas como colocá-la em prática quando há uma pilha de originais de um lado da mesa, uma lista de “coisas a fazer” do outro e deadlines se aproximando a uma velocidade assustadora?
Senhor, concede-nos graça, forças e sabedoria para manter nossas prioridades em ordem!

Felizmente, não é tarde demais para pensar no significado da Quaresma, acalmar nosso coração e prepará-lo para comemorar a Páscoa. Em tempo, isso não significa uma corrida ao supermercado para comprar duzentos ovos de chocolate para amigos e familiares.

1. O que significa, então?
Quaresma: Quarenta dias destinados à penitência.
Penitência: Sentimento pungente de arrependimento por pecados cometidos, menos pelo receio do castigo do que pelo amor e gratidão a Deus.

2. Qual a diferença entre arrependimento e remorso?
Remorso: Sentimento de inquietação da consciência por um pecado cometido. Não produz, necessariamente, mudança de atitude.
Arrependimento: Contrição motivada pelo amor a Deus. Não é apenas um sentimento, mas também uma decisão que leva a mudanças e produz resultados.

3. O que a Bíblia diz sobre o verdadeiro arrependimento?
“É a bondade de Deus que te conduz ao arrependimento” (Rm 2.4).
“Tende convosco palavras de arrependimento e convertei-vos ao Senhor” (Os 14.2).
“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados (At 3.19).
“Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; o coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Sl 51.17).
“Fostes contristados para arrependimento [...] Segundo Deus, para que de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar, mas a tristeza do mundo produz morte” (2Co 7.9-10).
“Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.8).

4. O que tudo isso tem a ver conosco?
Somos profissionais pacatos, seres humanos dedicados ao Senhor. Não temos uma vida libertina, vamos à igreja quase todos os domingos e até lemos e escrevemos blogs sobre as coisas de Deus. Passamos o dia inteiro trabalhando em casa ou numa empresa cristã e talvez nosso mundo pareça razoavelmente seguro, sem grandes tentações ao pecado.

Será?

Como administramos o tempo e os recursos que Deus nos dá? Como tomamos decisões pessoais e profissionais? Como anda nossa ética de trabalho? Qual é o fundamento do nosso sistema de valores? A quem procuramos agradar? Para quem vivemos?
Peço a Deus que esta semana seja um tempo de reflexão e ação. Que Deus nos dê arrependimento. Que tenhamos um coração contrito e profundamente preocupado em agradar ao Senhor. Que, depois de confessar nossos pecados, possamos aceitar o perdão de Deus. Que nosso arrependimento seja produtivo e promova mudanças (pequenas ou grandes, mas sempre práticas).

E, por fim, que possamos nos alegrar com a salvação que nos foi concedida pela morte e ressurreição de Cristo e vivamos cada vez mais em função desse fato.

sábado, 8 de março de 2008

Margaret Roper

Para lembrar o Dia Internacional da Mulher, selecionei alguns trechos do artigo Margaret Roper & Erasmus: The relationship of translator and source da revista WWR – Women Writing and Reading.

Margaret (1505-1544), filha de Thomas More, se tornou conhecida por sua tradução do latim para o inglês de Precatio Dominica [A devout treatise upon the Pater Noster] (1523) do humanista holandês e teólogo Erasmo de Roterdã. Convém lembrar que os escritos de Erasmo contribuíram de forma significativa para a estruturação das bases intelectuais para a Reforma Protestante (ver Allister McGrath, Teologia Histórica, Ed. Cultura Cristã, 2007. pp.134-135).

O artigo completo é longo, mas não monótono, pois descreve em detalhes os recursos usados por Margaret como tradutora para manter o espírito e a relevância do texto de Erasmo.

Chamam a atenção as observações sobre o modo como as mulheres estudiosas eram vistas na época (ver negrito meu abaixo) e sobre o papel pioneiro de Margaret não apenas como tradutora, mas como disseminadora do conhecimento.

As biographers, dramatists, historians, painters, and philosophers present her, Margaret Roper is preeminently her father's creature. Educated in the More household, this erudite woman is assumed to be a paragon of filial virtue, a characterization which has the potential to muffle individuality. Only a portion of her writing has survived [...]

In Erasmus's correspondence with Roper, whom he greeted as "optima Margareta," the humanist praised the letters of all the More sisters as "sensible, well-written, modest, forthright and friendly" (letter 1401, Basel, 25 December 1523). His Christmas gift to her in the year of the publication of Precatio Dominica was his commentary on Prudentius's hymns for Christmas and the Epiphany; the gift not only verifies his confidence in Margaret's Latin but also reveals Erasmus's "attitude presque paternelle" since he casts himself as "le pédagogue attentioné, soucieux de former une élève de choix" (Béné 473). The following year Erasmus used Margaret as "the probable model" (King 181) for Magdalia in the colloquy "The Abbot and the Learned Lady"; this interlocutor wastes no time chastizing the Abbot's fear of women's learning, deftly wielding a double-edged sword to reply to the claim that "a wise woman is twice foolish": That's commonly said, yes, but by fools. A woman truly wise is not wise in her own conceit. On the other hand, one who thinks herself wise when she knows nothing is indeed twice foolish. (Thompson 222) [...]

Margaret Roper was a creative translator schooled in travelling back and forth between Latin and English. The practice of double translation, from English to Latin and then from Latin back to English, encouraged in More's home-based school, supplied the "early apprenticeship" (Weinberg 26) Margaret drew on most effectively in A deuout treatise. Her father's ardent belief in the need to educate girls and boys as, in the phrasing of his letter to the tutor William Gonell, "equally suited for the knowledge of learning by which reason is cultivated," not only established "More's leadership, in both practice and theory, about the liberal training of women" (Rogers 120-23) but also must have heartened and inspired Margaret when Erasmus's commentary came into her hands. She knew from experience that "the study of Latin was, to some extent, a Renaissance puberty rite - but only for boys and young men - " (McCutcheon 201) and that her rare privilege also conferred a responsibility to share and disseminate this catechetical teaching. […]

The work of this unknown girl, who was also a remarkably shrewd, self-possessed scholar, is poised on the brink of individual creative expression. Although in the sixteenth-century female-gendered activity of translating, a woman translator was "less vulnerable to the accusation of circulating her words inappropriately" because "they were not, strictly speaking, her words at all" (Lamb 12), Roper's translation is not enslaved to the source language nor does it caper irresponsibly in the target language. The respect accorded the source seems due as much to its subject and intent as to its authorship. […]

The intense filial bond between Margaret More Roper and her father accounts for her scholarship, her friendship with Erasmus and, in a practical way, our recognition of her as a translator. But this daughter for all seasons is not simply a conveyor (translatus meaning "carried across") from Latin to English. In its elements of self-conscious discourse, her authorial voice does not shy away from teaching, from commentary on its own functioning and primary message. Her additions and embellishments, along with decisions to elide and collapse phrases, show how warmly she responded to the rhetorical exercise of preaching. Expounding on, colouring and extending the Erasmian source, her translation supplies a truly polyphonic response.

domingo, 2 de março de 2008

Deslizes

Na tentativa de fazer uma crítica (e autocrítica) útil, estou compilando uma lista de equívocos de tradução. Esta é a primeira parte.
Uma vez que o intuito é chamar a atenção para deslizes que todos nós estamos sujeitos a cometer, conto os milagres, mas não os santos.
Os termos estão em inglês dos Estados Unidos traduzido para o português do Brasil. Entre parênteses, minhas sugestões. Se você também tem uma listinha assim ou sugestões para as palavras abaixo, deixe seu comentário.
  1. America (susbt.) — América (como referência ao país, melhor Estados Unidos). Quanto à nacionalidade, American, normalmente norte-americano é preferível a americano (afinal, estritamente falando, brasileiros também são americanos...).
  2. Approach (subst.) — aproximação (em muitos contextos, abordagem. E.g.: An optimistic approach to the problem.)
  3. Assume (vb.) — assumir (em vários casos, supor)
  4. Bottom line (subst.)— linha de fundo (em vários contextos, resultado, moral da história ou, ainda, lucro)
  5. Character (subst.) — caractere (quando associado a uma peça, livro ou filme, personagem)
  6. Compass (subst.) — compasso (em vários contextos, bússola)
  7. Disorder (subst.) — desordem (no contexto da saúde e comportamento, distúrbio. Some of them have a cognitive disorder.)
  8. Divination (subst.) — divinização (melhor, adivinhação, presságio)
  9. Do laundry (vb.) — cuidar da lavanderia (mais comum, lavar roupa)
  10. Entertain (vb.) — entreter (em alguns contextos, considerar. He entertained the possibility of buying a house.)
  11. Exciting (adj.) — excitante (em muitos casos, empolgante, emocionante)
  12. Expanse (subst.) — expansão (em vários contextos, melhor vastidão, extensão)
  13. Familiar (adj.) — familiar (por vezes, conhecido)
  14. Federal head (subst.) — cabeça federal (representante)
  15. Grain (subst) — grão (em vários contextos, melhor, cereal, ou mesmo, trigo)
  16. Gym (subst.) — ginásio (academia [de ginástica])
  17. Intriguing (adj.) — intrigante (em alguns contextos, é melhor enigmático, curioso, interessante)
  18. Lamp (subst.) — lâmpada (abajur, luminária)
  19. Luxury (subst.) — luxúria (normalmente, luxo)
  20. Novel (subst.) — novela (romance, literatura de ficção)
  21. Part (subst.) — parte (quando associado a um ator, papel)
  22. Perfect (vb.) — aperfeiçoar (em alguns contextos, também pode ser completar. Christ wishes to perfect his plan in our lives.)
  23. Plant (subst.) — planta (por vezes, fábrica, usina)
  24. Pretense (subst.) — pretensão (em vários casos, fingimento, simulação).
  25. Prevent (vb.) — prevenir (com freqüência, impedir)
  26. Primarily (adv.) — primariamente (principalmente, acima de tudo)
  27. Prize (vb.) — premiar (geralmente, apreciar, gostar, avaliar)
  28. Resume (vb.) — resumir (retomar, recomeçar, prosseguir)
  29. Service (subst.) — serviço (no contexto da igreja, também pode ser culto. He never attends the morning service.)
  30. Support (subst.) — suporte (em vários contextos, melhor apoio ou mesmo incentivo)
  31. Support (vb.) — suportar (em vários contextos, melhor apoiar, sustentar)
  32. Take advantege (vb.) — tirar vantagem (por vezes, pode ser melhor se aproveitar de. She takes advantage of her sister’s willingness to help.)
  33. True (adj.) — verdadeiro (em alguns contextos, fiel)
  34. Virtually (adv.) — virtualmente (na maioria dos casos, praticamente. Virtually all the board members were at the meeting.)
  35. Well-educated (adj.) — bem-educado (em vários contextos, culto, instruído).

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Mais Tatiana Belinky

Do clipping PublishNews - 27/02/2008
A escritora Tatiana Belinky estará na Livraria da Vila da Vila Madalena (Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, tel. 11-3814 5811) no próximo sábado (01/03), a partir das 15h, para o lançamento do livro Limeriques da Cocanha
(Companhia das Letrinhas, 40 pp., R$ 28). No livro, ilustrado por Jean-Claude Alphen, a autora explora o imaginário sobre a Cocanha, apresentando aos leitores mirins essa terra da fantasia, inventada há séculos e desejada por muita gente. Uma terra onde não há nada melhor do que não fazer nada, povoada pela abundância, saúde e prazer. Nascida em São Pertesburgo em 1919, Tatiana foi a responsável pela primeira adaptação para a TV do Sítio do Picapau Amarelo. Informações pelo telefone 11-3814 5811.

***

Convém lembrar que, além de autora de livros infantis, Tatiana também é tradutora de obras importantes da literatura russa, como Almas Mortas de Nikolai Gogol.
Excelente oportunidade de trocar algumas palavras com uma profissional experiente da nossa área.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O esquecido ponto-e-vírgula

Quem teria a idéia de escrever sobre o ponto-e-vírgula? Neil Roberts, jornalista do New York Times, se prontificou. Redigiu um artigo curioso sobre o sinal de pontuação menos conhecido tanto no inglês quanto no português. Em Celebrating the Semicolon in a Most Unlikely Location, Roberts explica o que leva tanta gente a hesitar em usar esse sinal de pontuação.

Os dicionários Houaiss e Aurélio trazem definições semelhantes para o dito cujo: "
Sinal de pontuação (;) que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto". Oh, really? Se você também continuou na mesma, confira os exemplos esclarecedores do site Gramática On-Line e bom uso do tão esquecido ponto-e-vírgula!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Cursos com Lia Wyler em São Paulo

De 10 a 15 de março Lia Wyler , tradutora da série Harry Potter, compartilhará sua experiência profissional por meio de aulas sobre Fluência em Tradução. Serão oficinas para ajudar o profissional do texto (tradutores, escritores, revisores) a redigir com clareza, naturalidade e precisão. O objetivo do curso é capacitar o aluno a responder a questões como:
1. O que é português fluente?

2. O que é concisão?

3. O que é clareza?

4. O que é tradução fluente?

Para obter todas as informações sobre os cursos visite o site da Malk Comunicação.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Happy Valentine's Day?

A meu ver, quem trabalha com a língua inglesa faz bem em manter contato com as culturas em que o idioma é falado. Daí a lembrança de que em vários países comemora-se no dia 14 de fevereiro Valentine' s Day. Traduzido com freqüência como "Dia dos Namorados" (um equivalente não muito exato, pois, pelo menos nos Estados Unidos e Canadá, a data também é comemorada entre amigos e parentes), Valentine's Day tem uma história rica que, como outras datas comemorativas, entretece cristianismo, paganismo e comércio. O periódico Christianity Today traz um artigo curto com um resumo dessa história e mostra a mudança de significado do termo Valentine ao longo dos séculos. Quem quiser saber mais pode seguir os links no final do artigo.

Não obstante as origens e o significado da data, uma forma apropriada de comemorá-la é lembrar das palavras do apóstolo João sobre o verdadeiro amor:
"Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos" (1Jo 3.16).

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Fidelidade

Há tempos estou lendo em doses homeopáticas Quase a mesma coisa – experiências de tradução (Record, 2007; trad. Eliana Aguiar), o texto instrutivo e espirituoso de Umberto Eco sobre a fidelidade na tradução.

Como fã de carteirinha dos escritos de Eco, não sou a pessoa ideal para tecer comentários muito objetivos. Deixo registrado, apenas, que a leitura é de dar gosto até para os alérgicos à teoria da tradução. Quem quiser saber mais sobre Quase a mesma coisa pode ler uma crítica extensa e pertinente no Jornal do Brasil (indicada pela Paula Góes em seu post sobre o livro na Liga dos Tradutores).

Abaixo, trechos da introdução que resumem o modo como Eco trata do tema:

O que quer dizer traduzir? A primeira e consoladora resposta gostaria de ser: dizer a mesma coisa em outra língua. Só que, em primeiro lugar, temos muitos problemas para estabelecer o que significa “dizer a mesma coisa” e não sabemos bem o que isso significa por causa daquelas operações que chamamos de paráfrase, definição, explicação, reformulação, para não falar das supostas substituições sinonímicas. Em segundo lugar, porque, diante de um texto a ser traduzido, não sabemos também que é a coisa. E, enfim, em certos casos é duvidoso até mesmo que quer dizer dizer. {...]

Eis os sentidos dos capítulos que se seguem: tentar compreender como, mesmo sabendo que nunca se diz a mesma coisa, se pode dizer quase a mesma coisa. [...]


O curso on-line Logos também trata da fidelidade em pelo menos duas unidades. Destaco alguns pontos interessantes da primeira:

Translations must be faithful. On this requirement there is a general consensus in the scientific community and among translators. On the condition that nobody should get the idea of questioning what is meant by "fidelity", of course. Because, in such a case, one would realize that the consensus is achieved by "fidelity" meaning something vague, generically positive, vaguely corresponding to "goodness". A good translation is always faithful. And a faithful translation is always good. Tout se tient. [...]

Actually, the notion of "fidelity" also traveled through centuries in the writings of people speaking about translation without tracing a reconstructable coherent guideline.
In the 17th century in France there was a wide diffusion of the so-called belles infidèles, the "free" translations. With an extended macho metaphor concerning the division of women in two parts: the beautiful ones (hence necessarily unfaithful) and the ugly ones (hence necessarily faithful), translations were catalogued in this way, too.
The "ugly ones" are considered "faithful" because they would follow the phrase and the lexical structure of the original step-by-step. The "beautiful" ones should be unfaithful because they don't, preferring to the original structure the structure best accepted in the receiving culture to the original, and to the original's lexicon a lexicon produced spontaneously.
Such a view of fidelity/infidelity, and the preference for the latter, had been endorsed already in 46 Ancient Era by Cicero in the work Libellus de optimo genere oratorum.
The most quoted and most meaningful sentence writes:

I translated as an orator, not as an interpreter of a text, with the same expressions of thought, with the same ways of rendering it, with a lexicon appropriate to our language's character. In them I have tried not to render word for word, but I maintained each character and each expressive efficiency of the very words. Because I thought not more convenient to the reader to give him, coin after coin, a word after another: rather, pay him his due in the entire sum.

From this passage it is clear that the text adaptation proposed by Cicero is closer to the sense of reading functionality than philological precision. All the more so when he states he translates "as an orator", i.e. as a person who wants himself well, and easily understood, and read, not "as an interpreter", i.e. not as a hermeneutist philologist of the original.
The notion of "faithful translation" is here considered analogous to "word-for-word translation", but neither is this over-two-thousand-years-old view is the only way to understand "fidelity".


O livro de Eco nos convida à essa reflexão acerca da fidelidade na prática diária. Seu último parágrafo propõe:

A conclamada “fidelidade” das traduções não é um critério que leva à única tradução aceitável [...] A fidelidade é, antes, a tendência a acreditar que a tradução é sempre possível se o texto fonte foi interpretado com apaixonada cumplicidade, é o empenho em identificar aquilo que, para nós, é o sentido profundo do texto e é a capacidade de negociar a cada instante a solução que nos parece mais justa.

Se consultarem qualquer dicionário, verão que entre os sinônimos de fidelidade não está a palavra exatidão. Lá estão antes lealdade, honestidade, respeito, piedade.


Qual é sua visão da fidelidade? Como você procura manter o texto traduzido fiel ao original?

sábado, 2 de fevereiro de 2008

De fraldas no templo

Removidas as bolinhas de naftalina, dada a ordem de despejo para as traças e desgrudadas as teias de aranha, eis uma versão semi-reciclada de um texto que escrevi alguns anos atrás para comemorar o dia 2 de fevereiro.

O que esse dia tem de especial?

Evangelho de Lucas, capítulo 2: Era um bebê como qualquer outro, ainda meio com cara de joelho. Quem o pegasse no colo não escaparia da curiosidade que enchia os olhinhos muito escuros e, com certeza, sentiria aquele cheiro de Danoninho que todo bebê parece ter.

Acompanhada do marido, a mãe do menino foi ao templo levar uma oferta de purificação, conforme a Lei de Moisés exigia. Os dois também aproveitaram a ocasião para apresentar a criança, pois era o primeiro filho e devia ser dedicado ao Senhor (Levítico 12, Números 3 e Deuteronômio 15.19).

Quando os pais do menino estavam oferecendo o sacrifício pela purificação, chegou um sujeito chamado Simeão. Para espanto geral, Simeão pegou o bebê no colo e disse:

“Senhor, agora eu posso morrer em paz! Pois eu o vi como o Senhor me prometeu que veria. Eu vi o Salvador que o Senhor prometeu dar ao mundo”.

Uma senhora muito idosa chamada Ana se aproximou na hora que Simeão estava falando e também começou a dar graças a Deus e dizer para todos que o Messias havia chegado.

Pois é. Lá estava ele, o Messias de fraldas.

Mas como foi que Simeão e Ana olharam para aquele pedacinho de gente – sem auréola na cabeça, sem raios de luz ao seu redor, sem coral de anjos nem efeitos especiais – e viram o Filho de Deus, o Cristo que veio ao mundo para nos salvar?

Tenho a impressão que a resposta está na descrição dessas duas pessoas.

De acordo com Lucas 2:

1) Simeão era devoto. Devoção quer dizer deixar uma porção de coisas de lado e voltar toda nossa energia e atenção para o objeto da devoção. É ter as prioridades em ordem.

2) Era cheio do Espírito Santo. Recebemos o Espírito Santo quando aceitamos Jesus como Salvador. Ponto e pronto. Mas, sem a devoção, o Espírito Santo fica soterrado debaixo de outras coisas mais “importantes”. Simeão dava espaço para o Espírito ficar bem confortável dentro dele e fazer o seu trabalho.

3) Vivia esperando o Messias. O Antigo Testamento tem uma porção de promessas sobre o Messias. Com a ajuda do Espírito, Simeão acreditava no que estava escrito na Palavra de Deus e vivia em função disso.

4) Ana adorava a Deus com orações e, muitas vezes, jejuava. Ela se admirava com o caráter de Deus e declarava seu amor profundo por ele. O jejum era sua forma de dizer para Deus que ele era mais essencial para a vida dela do que o próprio alimento.

5) Fazia plantão 24 horas por dia, 7 dias por semana no templo. Naquela época, o templo era considerado o lugar da presença de Deus. Assim, em outras palavras, Ana passava seus dias e noites na companhia de Deus. Hoje, nós que aceitamos a Cristo como Salvador somos o templo do Espírito de Deus! Quer a gente se dê conta ou não, ele está conosco o tempo todo.

Esses dois eram amigos chegados de Deus e como Jesus era “a cara do Pai”, não tiveram dificuldade em reconhecê-lo. Por isso, receberam o privilégio enorme de ver e segurar o menino e dar graças a Deus por ele.

E o que isso tudo tem a ver com o dia 2 de fevereiro?
Em algumas tradições cristãs esse dia marca o final do tempo de Epifania.
Deus se revelou ao mundo em Jesus no tempo de Maria, José, dos apóstolos, etc e tal (Epifania) e continua se revelando a nós à medida que nos relacionamos com ele. Às vezes, porém, essa revelação pode parecer insignificante, feito um bebezinho. Ana e Simeão mostram como enxergar além das aparências.

Talvez, você não concorde que o Salvador tinha cheiro de Danoninho, mas uma coisa é certa: ele sabia que não seria fácil deixarmos de lado nossas Grandes Ambições, nossos Trabalhos Importantes e Enormes Preocupações e conseguir vê-lo nas coisas pequenas, humildes, despretensiosas. Por isso, pouco antes de sua morte, orou ao Pai e pediu por você e por mim:

“Eles não fazem parte deste mundo mais do que Eu. Que o Senhor faça todos puros e santos, ensinando-lhes as suas palavras de verdade”.

“Eu revelei o Senhor a eles, e continuarei a revelar, para que o poderoso amor que o Senhor tem por mim possa estar neles, e Eu neles”. (João 17.17, 26)

Em 2008, mal acabamos de lembrar a revelação de Deus em Jesus e já é hora de começarmos a refletir sobre a Páscoa (a Quaresma começa na próxima quarta-feira).

Apesar de não ser católica romana, creio que este é um período especial e gostaria de desafiar você a escolher um dos quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas ou João) para ler e meditar sobre o que aconteceu entre o encontro do bebê Jesus com Ana e Simeão e o reencontro do Senhor ressurreto com o Pai no céu depois de terminar seu trabalho aqui na terra.

Que este possa ser um tempo de descobertas e aprendizado sobre nosso Salvador.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Profissionais X Internautas

A revista Língua Portuguesa traz uma reportagem sobre a tradução do último volume de Harry Potter para várias línguas. Nada de muito novo.
Interessante, porém, a comparação feita entre um trecho do texto de J. K. Rowling, a tradução do mesmo por Lia Wyler e aquela feita por um grupo de internautas. Uma boa oportunidade de apreciar as soluções encontradas por uma excelente profissional e compará-las com o resultado de um trabalho feito às pressas pela equipe de "tradutores amadores". Antes de criticar os bem-intencionados internautas, é importante não esquecer da contribuição de preparadores de texto, editores e revisores para a qualidade consideravelmente superior da tradução de Wyler.