terça-feira, 30 de setembro de 2008

Rosh Hashanah e Dia do Tradutor


Além de ser Dia do Tradutor, hoje também é Rosh Hashanah, o Ano Novo dos judeus.

De acordo com as crenças judaicas, a cada Rosh Hashanah Deus reavalia sua criação é decide se ela merece outro ano neste mundo. Todos são julgados pelo Criador com base naquilo que fizeram no ano anterior. Deus registra o julgamento e determina se o próximo ano será de bênção ou disciplina. Apesar de ser escrito no livro de Deus em Rosh Hashanah, esse julgamento só é selado dez dias depois, em Yom Kippur, o Dia da Expiação, daí o costume de usar, nessa época, uma saudação especial: “Que você seja escrito e selado para um bom ano”.

Durante esses dez dias, todos podem refletir sobre como melhorar seu julgamento através de três atos: Arrependimento, Oração e Caridade. O arrependimento implica verdadeiro pesar, remorso pelo passado e um compromisso de mudança para o futuro. A oração fervorosa e os atos de bondade contam pontos positivos e, se realizados com sinceridade, podem levar Deus a fazer um “upgrade” da situação espiritual do indivíduo.

O apóstolo Paulo chama isso de “obras da lei” e diz: “O homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gálatas 2.16).

Se você imagina que a idéia de salvação por obras é exclusividade dos judeus, talvez convenha analisar se, de vez em quando, não faz uma coisa aqui e outra ali só para marcar uns pontos no placar celestial...


Além da retrospectiva do ano, um dos elementos característicos da comemoração de Rosh Hashanah é o chofar, um chifre de carneiro que, ao ser soprado, emite vários tipos de som. O toque do chofar nas cerimônias de Rosh Hashanah serve para:

  • Proclamar que Deus é o Rei do Universo.
  • Despertar o espírito que anda meio “cochilando”.
  • Expressar uma súplica profunda da alma humana a Deus.

Diante dos propósitos acima, podemos perguntar:

  • Estamos vivendo de acordo com a realidade do controle soberano de Deus sobre tudo que acontece em nossa vida e no mundo? Que diferença isso faz para nós?
  • Será que nosso espírito está acordado para se relacionar com Deus, ou anda meio distraído com uma porção de outras coisas?
  • Nossa alma suplica (pede com humildade e anseio) para permanecer na presença de Deus? Ele é tudo o que mais queremos?

Outro costume de Ano Novo judeu consiste em mergulhar um pedaço de maçã no mel e dizer antes de comer: “Que o novo ano seja bom e doce”.

Se a pessoa deseja que o ano novo seja bom, por que pedir também que seja doce?

O pedido por um bom ano novo é mais um reconhecimento do que um desejo, pois Deus é bom, tudo o que vem das mãos dele é bom e tudo o que ele faz ou permite que aconteça em nossa vida é bom. “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Salmo 145.9).

Infelizmente, nem sempre nossos olhos são capazes de enxergar essa bondade e, muitas vezes, nosso coração também não quer aceitá-la. Por isso, é costume pedir um ano doce. Quando nos lembramos que Deus está sempre operando para o nosso bem, até as situações mais adversas adquirem certa doçura, pois percebemos o carinho do Pai em meio às dificuldades. Ao aceitarmos o cuidado que Deus manifesta em suas bênçãos e disciplinas, não praticamos o arrependimento, a oração e a caridade por obrigação, mas sim, como resposta de gratidão à doçura do amor divino.

Que você possa receber o perdão oferecido por meio de Jesus Cristo e se lembrar de que, ao fazê-lo, o seu nome estará registrado e selado para passar a eternidade com Deus.

Que o chofar do Espírito Santo desperte o seu espírito para tudo que é verdadeiramente importante.

E que você possa se lembrar da doçura do amor de Deus a cada dia.

Um alegre Rosh Hashanah e feliz Dia do Tradutor!


quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O definitivo e o temporário

Enquanto relia alguns trechos do livro A Teologia do Século 20 (Ed. Cultura Cristã, 2003) e encontrava uma porção de defeitos no meu próprio trabalho de tradução, me deparei com uma passagem sobre Dietrich Bonhoeffer. Nascido em Breslau em 4 de fevereiro de 1906, o pastor e teólogo alemão foi morto no campo de extermínio de Flossenburg na madrugada de 9 de abril de 1945, poucos dias antes de os Aliados libertarem os prisioneiros daquele campo. Sua vida curta foi marcada não apenas pelos trabalhos acadêmicos, mas pelo anseio por ser um verdadeiro discípulo de Cristo em tempos conturbados e pelo envolvimento com a realidade ao seu redor.

Desde muito jovem, Bonhoeffer havia se interessado pela teologia. No final, porém, descobriu que havia sido chamado para outra vocação, aquela de sacrificar sua vida pela fé.

Vários aspectos de seus estudos teológicos continuam sendo relevantes nos dias de hoje. A passagem que me chamou a atenção trata especificamente do definitivo e do temporário:

Bonhoeffer combinou esses dois aspectos do discipulado cristão através do uso inspirado dos conceitos de “disciplina secreta” e seu par, a relação integral entre “definitivo” e “temporário”, sendo a segunda idéia a de mais fácil compreensão.

Para Bonhoeffer, há uma ligação íntima entre a realidade eterna e o mundo presente. Esse relacionamento significa que o cristão deve evitar os erros da completa rejeição ou completa aprovacação do mundo presente (isto é, temporário). Os cristãos devem viver como aqueles que pertencem completamente a este mundo temporário. Ao fazê-lo, entretanto, devem sempre ter em vista que Cristo é o Senhor do mundo e que o agir de Deus se manifesta na vida diária. O definitivo é que dá sentido ao temporário. Portanto, Bonhoeffer chamava os cristãos a se envolverem na vida dentro do mundo com uma visão da realidade definitiva, que é Deus e a intenção de Deus de oferecer justificação ao crente. Desse modo, a vida cristã no mundo torna-se “participação no encontro de Cristo com o mundo”, no sentido de que “em Cristo, a realidade de Deus encontra a realidade do mundo” (pg. 184).

O definitivo é que dá sentido ao temporário.


Que possamos ter essas palavras em mente ao negociar prazos de jobs, assinar contratos, tomar decisões profissionais e pessoais, sair às compras e cuidar dos nossos afazeres diários.


sábado, 20 de setembro de 2008

Bulletin Board


Repasso abaixo alguns avisos que recebi esta semana de colegas tradutores.


Como alguns de vocês provavelmente já sabem, há algum tempo a colega Denise Bottmann (copiada nesta mensagem) lançou o blog "assinado-tradutores" com o objetivo inicial de denunciar fraudes em traduções (publicação de traduções plagiadas). Denise vem conduzindo o assunto com determinação e empenho, e convida os associados da Abrates a apoiar essa iniciativa e outras tantas apresentadas pelo "assinado-tradutores", todas elas favoráveis ao profissional da tradução.
Nos dia 27 e 28 de outubro, o Ministério da Cultura (Minc) realizará o Fórum Nacional do Direito Autoral, no Rio de Janeiro. O Fórum terá seis câmaras setoriais, sendo uma delas sobre tradução. O Minc convidou os representantes do "assinado-tradutores" para participar da Câmara sobre Tradução e Denise nos repassou o convite para integrar o debate. A idéia da Denise é levar uma pauta com as propostas dos tradutores quanto à alterações que desejamos ver na Lei de Direitos Autorais.
Assim, convidamos os associados interessados no tema a encaminhar para a Abrates até 3af, dia 23/set/08, suas sugestões e reflexões, para que possamos alinhar nossos pensamentos e delinear uma pauta de propostas juntamente com o "assinado-tradutores", pauta essa a ser apresentada durante o Fórum Nacional do Direito Autoral.
Aproveitamos ainda para encaminhar link recebido de Denise Bottmann com notícia de plágio sobre o trabalho de Monteiro Lobato: http://assinado-tradutores.blogspot.com/2008/09/monteiro-lobato.html

Abraço cordial de
Sheyla Barretto de Carvalho - Presidente
Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes

* # * # * # * # *** # * # * # * # *



Estamos oferecendo duas oportunidades de aperfeiçoamento para que você se destaque no acirrado mercado de traduções:
  1. Todo tradutor é um escritor e deve afiar sua principal ferramenta de trabalho: a redação na língua de chegada. A oficina Ser Escritor será realizada em São Paulo, no dia 27 de setembro, um sábado. O orientador será o Prof. Dr. Gabriel Perissé, autor de mais de uma dezena de livros, Mestre em Literatura Brasileira e Doutor em Educação pela USP. Conheça-o aqui. O valor do investimento é de 159 reais para quem se inscrever até dia 21 de setembro. A partir do dia 22 o valor passará para 198 reais.
    Aqui você terá todas as informações sobre conteúdo, local, horário e inscrição.

  2. Diante do grande sucesso de sua última edição em julho, estamos reeditando o curso Tradução e Versão de Artigos Científicos em Inglês, agora totalmente dirigido ao profissional de tradução. Será em São Paulo, nos dias 3, 4 e 5 de outubro (noite de sexta, sábado e manhã de domingo). A orientadora é a Profa. Dra. Ana Julia Perroti-Garcia, graduada em Odontologia, Especialista em Tradução pela USP e autora de seis dicionários dirigidos à tradução. Conheça-a aqui. O valor do investimento é de 329 reais para quem se inscrever até dia 28 de setembro. Do dia 29 em diante, as inscrições custarão 390 reais.
    Aqui você terá todas as informações sobre conteúdo, local, horário e inscrição.
As modalidades de pagamento são várias, incluindo parcelamento em cartão de crédito e cheque. Obtenha informações e faça sua inscrição pelo site www.malkcursos.com.br. Mas se precisar falar conosco, use nosso MSN (malkcursos@hotmail.com). Caso prefira falar por telefone, ligue para (11) 3774-9622 em horário comercial.
Um abraço,
Robinson Malkomes
Malk Comunicação Ltda

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Acordo Ortográfico

Graças a um clipping do Publishnews, finalmente encontrei informações completas sobre o acordo ortográfico que deve entrar em vigor em 2009. A página de educação do IG traz uma seção especial com artigos sobre o assunto e guia com todas as alterações. Enjoy!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Falar e escrever melhor em inglês (e em português também)


Para quem trabalha com versões ou simplesmente deseja melhorar sua comunicação em inglês, algumas dicas da BBC.
Para ver a lista completa, clique aqui. O guia de estilo de redação da BBC está disponível em formato pdf e também traz várias informações úteis.


Observe no item 5 que o hábito detestável de usar apóstrofe para formar plurais não é "privilégio" dos brasileiros.

Algum problema de uso do português (gramática, pronúncia, grafia) na comunicação diária incomoda você? Compartilhe!
Exemplos clássicos: "Vou pegar ela", "para mim fazer", "da vez passada", "adevogado", "opição", "o soja", "o alface"...


20 examples of grammar misuse

Grammar just ain't what it used to be, it seems. When we explained the difference between "fewer" and "less than", following Tesco's policy shift on this matter, readers told us what grammar rules they see being flouted or find confusing. The list was a long one. Here are the best.

1. The one that really annoys me is how people suddenly seem to confuse "have" and "of", as in: "I could of learnt how to write properly." There's no excuse for it!
Pete, Sheffield

[...]

4. If you do something to change a situation, then you "effect" a change. If your circumstances are changed by an action, then the change has caused an "effect". You cannot "affect" a change in something, nor can you be "effected" by one.
Rob, Lyme Regis

5. I get annoyed at the reckless use of apostrophes, for example, the plural of CD can't be CD's.
Shahed Alam, London

6. Many people, including public speakers, incorrectly use "I" instead of "me". For instance, they would say "She said some very kind things about George and I", thinking that they are being polite or grammatically correct. An easy way to remember which to use is: if you would say him or her on its own, use me; if you would say he or she on its own, use I. For example, "She said some very kind things about him".
Lorraine, Aylesbury

[...]

8. How about "none of them is" and "none of them are"? Most people would use the latter whereas the former is correct. "None" is short for "not one" therefore "not one (none) of them is" would be used. Most newsreaders still get it right though - on the BBC anyway!
Emily, Bristol

NOTE: Fowler's Modern English Usage says that "none" is not short for "not one" and although using a singular verb is more common, using a plural verb has also been an acceptable option since the reign of King Alfred.

9. Similar TO, different FROM, compared WITH. Not "to" used for all of them!
Susan, Brisbane, Australia

NOTE: Fowler's Modern English Usage says: "The commonly expressed view that 'different' should only be followed by 'from' and never by 'to' or 'than' is not supportable in the face of past and present evidence or of logic." It adds that "compare to" is to liken and "compare with" or "compare to" is used to point out similarities and differences. The BBC News website style guide differs with Fowler's on this last point. It says that when pointing out differences, "compare with" should always be used.

[...]

11. I find the increasing, incorrect use of "literally" annoying.... "I literally went blue with anger!!" "Really?" I ask.
Ned, Wallingford

12. The proper use of "its" and "it's" seems to confound many people, with "its" being a possessive and "it's" being a contraction of "it is". I've seen this mistake made even in some rather lofty publications...
Eric, Berlin

13. It annoys me when people use "due to" when they mean "owing to". But then I'm a pedant.
Guy, London

NOTE: The BBC News website style guide says "due to" means "caused by" and needs a noun, but "owing to" means "because of" and relates to a verb. Hence, "the visit was cancelled [cancelled is the verb] owing to flooding" is correct. So too is "the flooding [flooding is the noun] was due to weeks of heavy rain".

14. As a secondary teacher, I'm beginning to despair when it comes to "they're", "there" and "their"; not to mention "to", "two" and "too". Why are we so afraid to correct these simple mistakes which make all the difference at a later stage?
Alexandra, London

15. There is also confusion over lend and borrow. I keep hearing school children asking "to lend your pencil" when what they actually mean is to "borrow" the pencil.
Ian Walton, Bedford

[...]

17. I don't like it when people say: I can go there "by foot" instead of "on foot"....the right preposition to use is ON.
Daniela, Urbana, IL

18. The usage that I find particularly irritating is that of a single noun with a plural verb, for example: "the team are happy with their victory", or "management have congratulated the workforce on the recent increase in productivity". Team is a singular noun so it should read "the team IS happy..." or "the team members ARE happy", the same applies "management HAS congratulated..." Also, what has happened to the word "versus", abbreviated "vs"? Now all we see is "v"; it is even read like that in sports announcements.
Lucia, Horndean, UK

NOTE: The BBC News website's style is that sports teams and pop/rock bands are always plural.

19. A classic confusing rule is the one that states that one is supposed never to end a sentence with a preposition. While this is easy and appropriate to follow in most cases, for example by saying "Yesterday I visited the town to which she has just moved" instead of "...the town she has just moved to", it becomes troublesome when the verb structure includes a preposition that cannot be removed from it, as in "At work I am using a new computer with which my manager recently set me up", which cannot correctly be changed to "...I am using a new computer up with which my manager recently set me".
Philip Graves, Stockholm, Sweden

20. Stadiums, as a plural of stadium, rather than stadia.
C. Matthews, Birmingham, UK

NOTE: Fowler's says that when dealing with modern sports grounds, rather than ones from the classical world, the plural is "stadiums".

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Secretários de Deus - I

Estou lendo em doses homeopáticas o livro Maravilhosa Bíblia (São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2008) de Eugene Peterson, tradução de Neyd Siqueira.

Comecei pela Parte II sobre Lectio Divina, uma prática a ser resgatada e da qual Peterson trata de modo bastante proveitoso.

A Parte III – “A companhia dos tradutores”, de grande interesse para nossa área, fala das traduções da Bíblia e do papel do tradutor em sua compreensão.

Há quem imagine que a tradução dos textos bíblicos é trabalho do passado remoto, encerrado com a Bíblia King James ou a versão de João Ferreira de Almeida. Mas é preciso lembrar que ainda há muitos tradutores labutando para captar com precisão as várias nuanças da Palavra em suas línguas originais e transmiti-las a nós em linguagem viva e acessível. Alguns desses tradutores, como o próprio Eugene Peterson (Bíblia The Message), têm renome internacional; outros trabalham no quase anonimato em várias partes do mundo, inclusive em solo brasileiro.

Quer sejamos ligados à área editorial ou não, é nosso privilégio como cristãos orar por esses tradutores e apoiá-los de acordo com nossas oportunidades e possibilidades.

Afinal, nas palavras do filósofo e teólogo Franz Rosenzweig: “Cada tradução é um ato messiânico que torna a redenção mais próxima”.

Abaixo, alguns trechos da terceira parte, capítulo 8 - “Os secretários de Deus”:

A grande maioria dos homens e mulheres que ouviram e/ou leram a Palavra de Deus, como revelada nas Escrituras e proclamada, o fez com a ajuda de uma vasta companhia de tradutores. Se não fosse pelo trabalho desses tradutores, a maioria deles anônima, haveria pouca leitura e menor probabilidade de se ouvir a Palavra de Deus. A Bíblia é o livro mais traduzido do mundo. […]

A tradução das Escrituras tornou-se necessária centenas de anos antes dos dias de Jesus. O mesmo aconteceu com a igreja primitiva, quando a sua língua original, o hebraico, foi gradualmente substituída na vida diária do povo de Deus, primeiro pelo aramaico, depois pelo grego.

Tradução para o aramaico

A tradução para o aramaico desempenhou um papel decisivo nos anos que se seguiram à volta de Israel do exílio babilônico, no século IV a.C. Em 583 a.C., o líder persa Ciro, que tinha idéias liberais, livrou Israel de seus anos de exílio, permitindo que o povo voltasse à terra natal, na Palestina. O aramaico era a língua oficial do império perda […] os idiomas que incluíam o hebraico de Israel foram postos de lado pelo aramaico, a língua oficial do governo e do comércio. […]

Temos um vislumbre do início desse processo de transformação do hebraico para o aramaico na história de Esdras e Neemias. […] [que] haviam viajado das regiões orientais do império persa para Jerusalém a fim de encorajar os desmoralizados judeus, que haviam retornado do exílio na Babilônia. […]

Esdras levou consigo uma cópia da Lei de Moisés escrita em hebraico original. […]

Havia, porém, um problema. O povo, que perdera o contato com o próprio passado, também se distanciara de sua língua, o hebraico; embora a maioria deles certamente a compreendesse, não era mais a língua materna. […] As pessoas tinham sido criadas falando aramaico. […]

Aparentemente, o grande empreendimento de recuperação da identidade almejado por Esdras exigia a ajuda de intérpretes. Por sorte, os levitas, a classe sacerdotal responsável por manter contato com suas raízes mosaicas, continuaram bons conhecedores do hebraico. Assim, enquanto Esdras lia o rolo escrito em hebraico, treze levitas colocados estrategicamente no meio da congregação reunida, ficavam “interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido” (Ne 8:8).

“Explicando-o” não era, provavelmente, uma tradução no sentido estrito do termo, mas uma ajuda ao povo, ao explicar e interpretar o que Esdras lia naquele texto longo, negligenciado e, agora, pouco familiar. […] foi uma iniciativa que fez mais do que simplesmente fornecer termos equivalentes às palavras lidas naquele dia. O trabalho de tradução interpretativa dos levitas envolveu a vida, o coração e a alma, e não apenas a mente do povo: a princípio, as pessoas choraram e depois se regozijaram, “pois agora compreendiam as palavras que lhes foram explicadas” (Ne 8.9-12). Esse é o resultado pretendido pela verdadeira tradução: provocar o tipo de compreensão que envolve a pessoa inteira em lágrimas e riso, coração e alma, naquilo que é escrito e é dito.

To be continued...

Leia a sinopse, um trecho do livro e comentários no site da Editora Mundo Cristão.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O preço por lauda é R$20, graças ao bom Deus. Amém, irmão?


Semana passada, li um texto de tema controverso mas de implicações muito práticas: Cristãos que procuram dar seu testemunho de forma indireta. Há quem acredite que vale tudo: adesivo nos cadernos, capacete, bicicleta, carro (p.ex.: “Em caso de arrebatamento, este veículo ficará desgovernado” ou “Rastreado pelo Espírito Santo”), "camiseta confessional", Bíblia tamanho família debaixo do braço, mesa do escritório que mais parece um formigueiro de tanta parafernália do Smilingüido, capacho “Jesus Te Ama” na porta do apê, e por aí afora.

Mas será que desfilar feito um carro alegórico da “Unidos da Vila Gospel” corresponde ao exemplo bíblico de testemunho?
A autora questiona de maneira bastante apropriada qual é a motivação por trás desses gestos e conduz a uma reflexão saudável sobre o modo como compartilhamos (ou deixamos de compartilhar) nossa fé. Incluí trechos do artigo no final do post, mas vale a pena ler o texto completo e, especialmente, os comentários dos leitores.

E nós com isso?

O tradutor cristão que trabalha com clientes “seculares” (essa divisão é conversa para outro dia) pode se perguntar quais são as maneiras apropriadas de falar de Cristo nesse contexto. Não sei como é com você, mas no meu contato com editoras não-cristãs, tenho pouquíssimas oportunidades de falar de questões de fé. De acordo com algumas linhas de evangelismo, precisamos criar oportunidades. Como fazer isso, porém, quando conversamos três ou quatro vezes por e-mail com um cliente e depois nunca mais falamos com ele? Ainda estou tentando descobrir a resposta.

“O ser humano é pecador e não pode salvar-se a si mesmo. A vida eterna é um presente que Deus nos dá porque Jesus morreu na cruz por nossos pecados e nos proporciona gratuitamente um lugar no céu. Precisamos aceitar esses fatos pela fé, confiando em Jesus Cristo para a vida eterna”.

Eis a mensagem mais preciosa e importante que podemos transmitir a alguém. Leva pouco mais de 10 segundos para dizer as palavras, mas não é tão simples assim… Ou será que é?

Enquanto não chego a uma conclusão (sugestões são bem-vindas), procuro compartilhar minha fé com as pessoas que tenho menos contato das seguintes formas:
1. Por meio deste blog.
2. Cartões de Páscoa, Natal, Ano Novo, etc (de preferência, acompanhados de cookies ou brownies).
3. PRINCIPALMENTE, pedindo que Deus me ajude a viver a mensagem de 10 segundos ao longo das horas do dia: práticas honestas, cumprimento de prazos, preços justos, e por aí afora.

Como você compartilha sua fé no local de trabalho?

Secondhand Faith
by Holly Vicente Robaina
We can’t expect T-shirts, jewelry, and bumper stickers to do all the work.
[...]
I've often wondered why some Christians wear "Jesus" T-shirts and cross necklaces. I'm not sure what people hope to convey with bumper stickers reading, "In case of rapture, this car will be unmanned."
I suspect many believers think their T-shirts and the like will attract non-believers to Jesus. I've heard Christians refer to their inspirational paraphernalia as "conversation starters" for the purpose of evangelism. But do these things actually serve as icebreakers for real conversation? Or do they just make us feel we've witnessed, without ever saying a word?
This "secondhand evangelism" doesn't seem very effective. [...]
T-shirts and other Christian paraphernalia may have a similar effect: repelling rather than inviting. We've all probably seen the "Darwin" version of the Christian ichthus (the fish symbol), or the bumper sticker reading, "In case of rapture, can I have your car?" The existence of antisymbols and slogans proves many people find Christian paraphernalia offensive. Certainly, we're not wrong to represent faith through our possessions. But we too often let symbols serve as the sole representation of our faith. When our next-door neighbors think about us, they should see us as the ones who say "Hello" every day. The ones who bring a plate of cookies at Christmas. The ones who volunteer to baby-sit or pick up their mail when they're on vacation. We shouldn't simply be the adjacent house's inhabitants who have a fish sticker on our minivan.
Our desire to display Christian paraphernalia may come from a good place. We want people to see what God's done in our lives. We want others to experience the difference Jesus can make in theirs. But we need to do more than just wear our faith on our sleeves, around our necks, or on our bumpers. We need to make ourselves available for real conversations, and pray God uses our lives and words to speak to others. […]

1) If you wear or display Christian paraphernalia, what are your reasons for doing so?
2) Do your actions back up your symbolic statement?
3) Is your witness limited to these displays, or are you having real conversations about your faith? How well do friends, co-workers, and neighbors who aren't Christians know you personally, and how well do you know them?

It's also important for Christians to consider how their bumper stickers/t-shirts/etcetera are perceived. In my opinion, there are some slogans that are clearly offensive, damaging, and not God-honoring (e.g. "Turn or Burn"). Again, we need to consider our actions. Are we acting in love? Or are we displaying Christian words and symbols out of pride, to incite, or to express superiority to non-believers?
Even if we're not wearing a "Jesus" t-shirt, we must continually ask ourselves: Do our words and actions reflect our faith in God? Are we "prepared to give an answer to everyone who asks you to give the reason for the hope that you have" and doing this "with gentleness and respect" (1 Peter 3:15, emphasis mine)? These are very important questions for every Christian to consider.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Abaixo, alguns artigos que li esta semana e links que talvez sejam de seu interesse.

Notícia curta, sobre lançamento da Knol, enciclopédia online da Google que, supostamente, não quer concorrer com a Wikipedia, mas sim complementá-la. Uma busca pelo termo "translation" retornou cinco itens. Ao que parece, ainda vai demorar algum tempo para se tornar uma ferramenta útil para nossa área. Alguém se dispõe a escrever um "knol" (como são chamados os artigos)? Uma vez que todo knol deve ser assinado, e não anônimo como os verbetes da Wikipedia, para alguns profissionais pode ser um meio de divulgação...

O blog da Cook Partners tem uma seção sobre tradução, com artigos como este: How switching languages can change your personality. O artigo é breve, mas os comentários de leitores mostram que o tema rende uma boa discussão.

Um tanto off-topic (será?), mas não necessariamente menos relevante, é o artigo do New York Times sobre o impacto causado pelas mulheres que escrevem blogs: Blogging's Glass Ceiling.

Recebi um e-mail esta semana com a divulgação de um site chamado Guia de Autônomos onde prestadores de serviço podem anunciar gratuitamente. Procurei "Tradutor" na janela de Busca Rápida e encontrei mais de 30 cadastrados, divididos por Estado.

That's all for now!

sábado, 26 de julho de 2008

De escritor e louco...

...todo tradutor tem um pouco?

Ontem, 25 de julho, foi o Dia Nacional do Escritor. Seria impreciso dizer que ontem "comemorou-se" o Dia Nacional do Escritor, pois a data é praticamente desconhecida, como observa Henrique Araújo em seu artigo sobre o assunto para o jornal O Povo.

Há quem diga que tradutores (e editores, revisores, bloggers, etc. e tal) são escritores frustrados. A meu ver, porém, aquele que traduz e aquele que escreve cumprem papéis um tanto diferentes, porém intimamente relacionados. É verdade que quem traduz não precisa gerar a idéia ex nihilo, mas "apenas" passá-la para outra língua. Não começa olhando para uma página vazia do Word com o cursor piscando. Parte de um texto pronto e trabalha com os conceitos que o autor resolveu desenvolver. O processo pode ser relativamente simples e direto quando os textos em questão são de cunho técnico ou acadêmico. As boas traduções literárias, contudo, envolvem uma dose considerável de um talento que não é exatamente igual ao do escritor. Ou será que o talento é o mesmo, porém desenvolvido de forma diferente?
Não é dificíl encontrar textos sobre o tradutor literário como escritor. Veja, por exemplo, este artigo do site Literary Translation.

O tema é interessante e, quem sabe, pode ser discutido em posts futuros. Minha intenção hoje, porém, é homenagear os tradutores que também são escritores. Não estou falando de escritores famosos que são convidados a traduzir grandes obras. Refiro-me a quem, como eu, ganha a vida traduzido com muita satisfação, mas, de vez em quando, resolve deixar o lado escritor "sair do armário" e cria seus próprios textos.

Não sei como acontece com outros, mas, para mim, a convivência com o alter-ego escritor é ligeiramente conflitante. Uma parte sonhadora suspira: Ah, como seria bom ter mais tempo e disciplina para escrever. Como seria gratificante ver um texto nosso publicado e interagir com os leitores. A outra parte, sempre muito sensata e prática, declara: Temos prazos a cumprir e contas a pagar. Não precisamos de mais complicações na vida. Os contratos de tradução são garantidos. Escrever é extremamente arriscado. Exige horas de trabalho árduo que talvez nunca seja reconhecido nem remunerado.
Cada um precisa analisar sua própria situação e pedir orientação de Deus. Gostaria, porém, de incentivar os tradutores que têm um lado escritor no armário a refletirem sobre algumas questões:
  • Posso abrir mão de algumas horas de trabalho remunerado sem comprometer os elementos mais básicos de meu orçamento e usá-las para escrever?
  • Tenho medo de desperdiçar tempo e esforço em algo que talvez não tenha o resultado que eu espero?
  • Qual é a pior coisa que pode acontecer se eu resolver trabalhar em meus próprios textos algumas horas por semana ou por mês?
Se você acredita que Deus lhe deu um talento específico - seja como tradutor, escritor, educador, músico, whatever - peça disciplina e coragem para usar essa dádiva. O talento vem de Deus, mas a responsabilidade de desenvolvê-lo é nossa e exige trabalho árduo. Por vezes, teremos de reavaliar nossas prioridades e tomar decisões um tanto assustadoras. Teremos de confiar no cuidado e provisão diária de Deus e nos expor a críticas e fracassos. Por outro lado, poderemos colher os frutos que Deus tem reservado para nós e vê-lo abençoar outros por meio do talento que nos deu.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Transloosely Literated

O artigo abaixo, do Jornal The New York Times é um lembrete divertido da importância, entre outras coisas, do estudo cuidadoso da tradução de títulos de obras estrangeiras. Convém ressaltar que, muitas vezes, a escolha do título não cabe ao tradutor da obra, mas ao departamento editorial, ou mesmo à equipe de marketing da editora. Não é raro o departamento editorial de algumas editoras pedir sugestões de títulos ao tradutor e, depois, lançar o livro com um nome completamente diferente, o que nem sempre é má idéia, pois muitos tradutores podem ser ótimos para trabalhar com o texto, mas não para vendê-lo ao leitor.

Transloosely Literated

Published: July 6, 2008

A book’s journey from one language into another can be perilous. The Russian title for J. D. Salinger’s classic tale of adolescence translates as “Above the Precipice in the Rye.” A clerk in a Yokohama bookshop once told John Steinbeck’s wife that yes, he had a copy of Steinbeck’s “Angry Raisins.” Has this bumpy road gotten any smoother in recent years? Let the following quiz be your guide.

1. One Italian translation of Roddy Doyle’s novel “Paddy Clarke Ha Ha Ha” is titled:

a) “Paddy Clarke Ho Ho Ho”
b) “Paddy Clarke Heh Heh Heh”
c) “Paddy Clarke Ah Ah Ah!”
d) “Paddy Clarke, Krakatoa del Laughter”


2. The Brazilian title of Curtis Sittenfeld’s novel “Prep” translates as:

a) “Bean Hulling”
b) “Thong Club”
c) “Pre-surgery Shaving”
d) “Foreplay”


3. James Finn Garner dedicated his best seller “Politically Correct Bedtime Stories” to his wife, Lies (pronounced “lease”), which is the Dutch equivalent of Elizabeth. In the Norwegian edition, the book’s dedication reads:

a) “This book is dedicated to Untruths, for everything”
b) “For Dissembling, my everything”
c) “For Rental Unit, my north star”
d) “Lies Flat, I can’t live without you”


4. Mary Morris was told that in German, the name of her memoir about traveling in Mexico, “Nothing to Declare,” implied authority and hence fascism. So the book was retitled:

a) “Machos und Tortillas”
b) “Caballeros und Tamales”
c) “Mädchen in Mexiko”
d) “Völlig Ungebunden und Frei und Ungebunden”
(“Footloose and Fancy Free”)


5. “Eetlust” is:

a) The German title of Elizabeth Gilbert’s memoir, “Eat, Pray, Love”
b) The Afrikaans title of Jhumpa Lahiri’s short story “Sexy”
c) The Dutch title for the Food Network star Jacqui Malouf’s cookbook and romance guide, “Booty Food”
d) The Swedish nickname for H. P. Lovecraft


6. “Teerbaby” is:

a) The German title of Toni Morrison’s novel “Tar Baby”
b) The Dutch novelization of the John Waters film “Cry-Baby”
c) The Afrikaans title of “Why Is My Baby Crying? The 7-Minute Program for Soothing the Fussy Baby”
d) A Belgian doll that weeps when touched


7. In 1987, Elinor Lipman received a letter from the Japanese translator of her story collection, “Into Love and Out Again.” “Dear Mr. Alinor Lipman,” the letter began, “Some questions come out.” They included “Page 39: What is B-school?”; “Page 93: What is health plan?”; and “Page 151: ‘Sabie Hawkins’: Is it a name of a dancehall?” What strange fate had befallen Mr. Alinor Lipman?

a) The letter had been typed by the translator’s assistant
b) The translator had written the letter in Japanese, then had it translated
c) The translator was less talented than she might have been
d) The letter was a prank being played on “Alinor” by Lipman’s friend, Meg Wolitzer


8. In the Brazilian edition of Jacquelyn Mitchard’s novel “The Deep End of the Ocean,” the passage “Beth truly wanted to be mad. A few bricks shy of a load. A few ants short of a picnic” was translated as:

a) “Beth felt like a drunk who couldn’t get served a drink.”
b) “Beth felt like an ant who hadn’t been invited to the picnic.”
c) “Beth felt like a brick that had been pulled from a wall.”
d) “Beth felt like a picnic. A big, crazy picnic.”


9. Puzzled by the word “Daddums,” the Dutch translator of David Shields’s novel “Dead Languages” asked Shields if it meant:

a) “Small pieces of data”
b) “A Dads Against Drunk Driving member”
c) “Molten fool”
d) “Webbed toes”


10. One translator told Sam Lipsyte that the Italian edition of his satirical novel “Home Land” would be worthless because the translator working on the book was using:

a) No punctuation
b) A 19th-century dictionary
c) Paduan slang
d) Heroin


11. In the Italian edition of Dan Wakefield’s novel “Going All the Way,” the main character, a football and basketball star named Gunner, is renamed:

a) Cannonero
b) Pistolo
c) Bombadero
d) Signor Sportpants


12. “Terre des Mecs” (“Land of the Guys”) is the French translation for:

a) Armistead Maupin’s novel “Tales of the City”
b) A nickname for Jamaica in Terry McMillan’s novel “How Stella Got Her Groove Back”
c) A David Leavitt character’s phonetic reference to Long Island as “the Guyland” (as in “lonGUYland”)
d) A nickname for the bottom shelf of “Sex and the City” author Candace Bushnell’s medicine cabinet


13. In his 1999 English version of Giovanni Verga’s “Cavalleria Rusticana and Other Stories,” G. H. McWilliam translates a passage in which a character moves his possessions into his father’s house by saying that he:

a) “Shifted in his movables”
b) “Distributed his transferables”
c) “Decanted his necessaries”
d) “Reconfigured his what-have-you’s”


14. In a speech at a science fiction festival in Chengdu, China, last year, Neil Gaiman referred to his novel “American Gods” as being “about old gods in America.” The audience erupted into shouts when the interpreter translated Gaiman’s reference as:

a) “ ‘American Goods,’ about old goods in America”
b) “ ‘American Dogs,’ about old dogs in America”
c) “ ‘American Cods,’ about old cods in America”
d) “ ‘American Gauze,’ about old gauze in America”


15. In the Chinese edition of “The Know-It-All,” A. J. Jacobs, an editor at Esquire, received what may be the ultimate bad translation. The photo and biography on the book’s back pay tribute to:

a) “A. J. Jabobs, editor at Esquirry magazine”
b) “J. J. Aacobs, writer of male articles”
c) The book’s translator, Tianfan Jiang
d) Mr. Alinor Lipman

Answers: 1) c; 2) d; 3) a; 4) a; 5) c; 6) a; 7) a; 8) b; 9) c; 10) c; 11) a; 12) c; 13) a; 14) b; 15) c

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Uma questão de ética - Parte I

Semana passada, li no ótimo blog Tradutor Profissional um post sobre uma questão ética que volta e meia dá as caras na rotina de qualquer profissional e considero apropriado refletir sobre o assunto.
Antes de redigir meu texto, porém, gostaria de ouvir sua opinião sobre os princípios éticos que norteiam a decisão de aceitar / recusar um projeto.

Eis, portanto, um conjunto de questões, aplicado à nossa área, para fazer você pensar:


  • Você aceitaria traduzir, editar, revisar (em resumo, participar de qualquer etapa da produção) de um texto que contradiz algum dos fundamentos da fé cristã e/ou crenças e valores pessoais?
  • Um cristão pentecostal, por exemplo, pode traduzir com imparcialidade um texto que afirma a cessação do dom de línguas na igreja atual?
  • Um tradutor de linha teológica conservadora consegue dar o melhor de si num projeto para uma denominação neopentecostal?
  • Um cristão pode / deve trabalhar para uma editora secular que publica textos com vocabulário chulo, violência, conteúdo erótico, esotérico, ateu, de outras religiões, ou simplesmente fútil?
  • E quando as divergências são mais sutis?
  • Em tempos de grande competitividade, é imprudente recusar trabalhos? É falta de profissionalismo?

Deixe seu comentário e expresse suas opiniões e estratégias para lidar com essas questões. Fique à vontade para propor outras perguntas.

sábado, 14 de junho de 2008

Glossário I

No post chamado Glossariando, expressei a intenção de começar a publicar um glossário de alguns termos e expressões com os quais me deparo com freqüência ao traduzir textos nas áreas de teologia, história da igreja e espiritualidade.

Abaixo, a primeira parte do dito cujo. Espero que seja proveitoso para você e convido-o a fazer suas contribuições. Afinal, as soluções que encontramos para nossos pequenos dilemas diários fazem mais sentido quando são compatilhadas.

Aviso importante: Não se trata de um glossário definitivo e incontestável, mas de um trabalho em constante evolução. As soluções propostas dependem, obviamente, do contexto. Várias dessas alternativas foram extraídas de duas obras de referência bastante proveitosas: Vocabulando (Isa Mara Lando) e Guia Prático de Tradução Inglesa (Agenor Soares dos Santos).

  1. Accomodate — acomodar, alojar + ajustar, adaptar, adequar,
  2. Administer the ordinances — no contexto da igreja, ministrar os sacramentos.
  3. Advocate (v.) — incentivar, instigar + lutar em favor de, defender
  4. Announcement — declaração, aviso, proclamação
  5. Area — no contexto geográfico, região.
  6. Argument (subst.) — argumentação (p.ex. “This idea contradicts the argument of some scholars on the matter”. - “Este conceito refuta a argumentação de alguns estudiosos sobre a questão”.), discussão (“The couple had an argument”. “O casal teve uma discussão”.).
  7. Appreciation — apreciação + gratidão, agradecimento, compreensão.
  8. Assumption — suposição, hipótese + arrogância
  9. Authoritative — autorizado, abalizado, autêntico, idôneo, competente, revestido de autoridade, oficial, conceituado, respeitado, fidedigno.
  10. Awesome — impressionante, assustador, aterrador + momentoso, tremendo, enorme + super legal, demais.
  11. Bear with — ter paciência, escutar com paciência
  12. Binding — irrevogável, obrigatório, inalterável
  13. Brush aside — ignorar, não fazer caso, desconsiderar, desprezar
  14. Capstone – na Bíblia, pedra de remate.
  15. Carry the day — levar a melhor
  16. Casually — em alguns contextos, tratar com descaso (p.ex.: “Treat God’s things casually".).
  17. Claim (v.) — reivindicar, mas também, asseverar, alegar, arrogar-se (p.ex.: “He claimed divine power – “Afirmou ter poder divino. / Arrogou a si poder divino”.). E ainda, arrebatar, tirar, eliminar, ceifar (p. ex.: “A few centuries ago, tuberculosis claimed the lives of many people”. “Alguns séculos atrás, a tuberculose ceifou a vida de muitas pessoas”.),
  18. Come down on the wrong side — tomar uma decisão infeliz a respeito de uma determinada questão. (p.ex.: “Democrats have come down on the wrong side of the immigration issue”. / “Os democratas tomaram uma decisão infeliz quanto à questão da imigração”.)
  19. Come into one’s own (to) — alcançar o sucesso, se revelar
  20. Community — semelhança, conformidade, acordo. (p.ex.: “Community of interests” - “Semelhança de interesses”).
  21. Comparable — em alguns contextos, semelhante. (“In no comparable period of human history so many important events took place”. “Em nenhum período semelhante…”).
  22. Compensation — reparação, indenização; make compensation – fazer reparação
  23. Complacency — condescendência, satisfação, prazer, contentamento, satisfação consigo próprio, com o próprio desempenho + vaidade, desvanecimento, fatuidade, ufania, tolerância, indiferença.
  24. Conviction — além de convicção, condenação, prova de culpabilidade
  25. Corn — lembrar que no inglês britânico e vocabulário bíblico, normalmente significa trigo, e não milho (um produto nativo das Américas).
  26. Corporate (adj.) — além de corporativo, conjunto.
  27. Crops — colheitas, safras, mas também culturas, cultivos
  28. Curry favor — obter o favor de alguém através de bajulação, lisonja
  29. Denunciation — exprobração, acusação, repreensão
  30. Devastating — impressionante, enorme, perturbador, chocante, de grande efeito, que chama a atenção, arrebatador, arrasador
  31. Dispute (subst.) — controvérsia, desentendimento, discórdia, briga + objeção, contestação. In dispute – controverso. / Open to dispute – discutível, que ainda não tem consenso.
  32. Divine — adj. divino, maravilhoso, delicioso + mas subst. “a divine” – teólogo, “the Divine” – Deus, o Ser Divino (no cristianismo) ou a divindade (em outras religiões).
  33. Domain — além de domínio, âmbito, esfera de ação.
  34. Downplay (v.) — minimizar, depreciar.
  35. To drive home — deixar claro, enfatizar.
  36. Epitomize — exemplificar, ilustrar, representar, personificar, simbolizar.
  37. Establish — instituir, fundar, patentear, comprovar + ganhar, granjear, (reputação, apoio) + apurar, esclarecer, verificar + definir, determinar.
  38. Eventually — mais cedo ou mais tarde, no devido tempo, por fim
  39. Explain away — minimizar com uma explicação lógica,
  40. Familiar — íntimo demais, atrevido, desrespeitoso. (p.ex.: “God was living among the people of Israel, but they shoudn’t become to familiar with him. – “Não deviam lhe faltar com o respeito”).
  41. Famine — na maioria dos casos, mais apropriado do que fome, é escassez, falta de alimentos num país ou região.
  42. Faithfully — além de fielmente, pode ser à risca (p.ex.: ““The instructions were followed faithfully”. “As instruções foram seguidas à risca”.) ou com dedicação (p.ex.: “Daniel served faithfully in the Babylonian court”. “Daniel serviu / trabalhou com dedicação na corte da Babilônia”.).
  43. Flying colors (with) — com grande sucesso, com sucesso absoluto, triunfante, vitorioso.
  44. Habit — em vários contextos, vício, e não apenas hábito.
  45. Heartrending — angustiante, aflitivo.
  46. Hot pursuit — perseguição imediata, contínua ou intensa; in hot pursuit – no encalço
  47. Incidentally — aliás, a propósito, além disso
  48. Inconclusive — inconcludente, improcedente, inconvincente, sem fundamento.
  49. Indictment — acusação formal
  50. Indulgence — prazer, satisfação, deleite. To indulge – entregar-se a um prazer, atender a um desejo / gosto. Self-indulgent – Conotação de entrega, abandono a um prazer, por vezes proibido ou excessivo. Em alguns contextos, degeneração, licenciosidade, excessos, devassidão.
  51. Evitar a tradução “auto-indulgência”.
  52. In so many words — explicitamente, claramente.
  53. Jack of all trades — (informal) pau para toda obra.
  54. Journey — não se refere apenas a jornadas (com o sentido de viagens por terra ou caminho que se percorre num dia), mas a viagens em geral, enfatizando especialmente distância e duração.
  55. Judgement(s) — num contexto legal sentença, parecer, decisão.
  56. Lawlessness — ilegalidade, porém, “Live in lawlessness” – “Viver à margem da lei”.
  57. Living death (a) — um sofrimento intenso, um suplício
  58. Lock horns — se desentender, entrar em conflito (p.ex.: “Athens locked horns with Sparta”. – “Atenas entrou em conflito com Esparta”).
  59. Loophole — brecha, omissão, buraco na lei. Em alguns contextos, “find a loophole” equivale ao nosso “dar um jeitinho”.
  60. Make an about face — dar meia-volta.
  61. Make no apology — não se justificar / explicar, não fazer rodeios.
  62. Mealy-mouthed — hipócrita, dissimulado.
  63. Offerer — ofertante (não aparece no Houaiss, mas é de uso corrente), oferente.
  64. Ostensible — aparente, pretenso, suposto (p. ex.: “Genesis was ostensibly written by Moses”. “Ao que tudo indica, Gênesis foi escrito por Moisés”.).
  65. Overlook — contemplar do alto, supervisionar, inspecionar + omitir, negligenciar, deixar passar + com vista para (p.ex.: “A hill overlooking the sea” — Um monte com vista para o mar”).
  66. Overwhelmed (negative sense) — sobrecarregado, oprimido, sob o peso de, etc.
  67. Overwhelmed(positive sense) — impressionado, maravilhado, encantado, etc.
  68. Pale — “Outside the pale” – fora dos limites
  69. Pass by — preterir. (p.ex.: “God’s election passed by Esau and rested on Jacob”. / “A eleição divina preteriu Esaú e repousou sobre Jacó”).
  70. Pick and choose — escolher à vontade.
  71. Positive — convicto, confiante, seguro + certo, eficaz, útil, prático, objetivo (p.ex.: “They responded positively and enthusiastically” — “Responderam/reagiram com determinação e entusiasmo”).
  72. Postulate — com freqüência: propor, estipular, e não postular.
  73. Prayerful — devoto, diligente na oração, reverente, zeloso.
  74. Prized — prezado, valorizado.
  75. Provision — no contexto bíblico das alianças de Deus, prescrição, cláusula, disposição.
  76. Pull out at all stops — Esforçar-se ao máximo, esmerar-se.
  77. Realization — além de percepção, compreensão, entendimento, também pode ser efetivação, concretização, (p.ex.: “Biblical equality allows for the realization of the differences between sexes”. – “A igualdade bíblica dá espaço para a concretização da diferença entre os sexos”.)
  78. Reassuring — tranqüilizador, reconfortante.
  79. Reliance — dependência confiante.
  80. Remedy — solução, reparação.
  81. Resiliance — capacidade de superar dificuldades, dar a volta por cima, flexibilidade, maleabilidade.
  82. Resourceful — pessoa prática, desenvolta, habilidosa, engenhosa, descolada. Resoursefulness — criatividde, inventividade, jogo de cintura, senso prático, jeito.
  83. Respecter — “No respecter of persons”. Trata a todos com igualdade. Não faz acepção de pessoas.
  84. Response — além de resposta, reação, atitude, postura diante de algo.
  85. Restraint — comedimento, moderação, autocontrole.
  86. Resume — não resumir, mas sim, retomar, recomeçar, prosseguir.
  87. Self-congratulation — auto-elogio.
  88. Self-righteous — moralista, santarrão, pretensioso, hipócrita, farisaico.
  89. Settlement — além de acordo, arranjo, instalação, também colônia, assentamento.
  90. Shoestring (on a) — com o dinheiro contado; contando os trocados
  91. Significance — relevância, importância, valor, o verdadeiro significado.
  92. Sober (adj.) — sério, sensato, ajuizado, solene, equilibrado, realista, contido, sem exagero, objetivo e não imaginoso.
  93. Spell out — explicar em detalhes, mostrar claramente.
  94. Struggle with — (v.) ter conflito, dificuldade com.
  95. Successful — nem sempre pode ser traduzido como bem sucedido, próspero. Em alguns contextos, proveitoso, eficaz (p.ex.: “An example of successful prayer”. – “Um exemplo de oração eficaz”).
  96. Suppress — além de suprimir, esmagar, eliminar, reprimir, conter + silenciar, subjugar, dominar, sufocar + restringir, limitar + eliminar da consciência.
  97. Survey — sondagem, panorama, visão geral, levantamento.
  98. Take for granted — deixar de dar o devido valor, não apreciar + supor, dar como certo + achar normal, natural, óbvio.
  99. Take lightly — não levar a sério, desdenhar.
  100. Tamper (v.)— adulterar, manipular indevidamente, interferir.
  101. Telling (adj.)— revelador (a telling remark), ponderoso, impressionante, forte, irrefutável (a telling argument)
  102. Term(s) — cláusulas (de um acordo, contrato), período em um curso.
  103. Thrilling (adj.) — surpreendente, interessante, sensacional, apaixonante, arrebatador.
  104. Timing — coordenação, controle do tempo; cronograma; planejamento; sincronia; momento certo, oportuno.
  105. Trace back – reconstituir, recapitular, descreve as etapas anteriores.
  106. True — fiel, firme, sincero.
  107. Turn the tide — virar a mesa, virar o jogo, mudar o rumo (p.ex.: “The battle turned the tide of the Revolution”. - “A batalha mudou o rumo da Revolução”).
  108. Ultimate — final, supremo, decisivo, derradeiro.
  109. Undisturbed — por vezes, intato, intocado. (p.ex.: “The emperor ordered that the tombs remain undisturbed”. - “O imperador ordenou que os túmulos permanecessem intocados”.).
  110. Unity — além de unidade, também pode ser união.
  111. Upheaval — cataclismos, transtornos, convulsão, erupção.
  112. Uphold — preservar, defender, aprovar.
  113. Virtually — na prática, praticamente + em essência, para todos os efeitos. Evitar a tradução “virtualmente”.
  114. Widespread — amplamente difundido, generalizado, comum.